Entre caminhos, atalhos e fugas: o desejo em movimento — uma leitura psicanalítica para jovens de qualquer idade
Por Hiran de Melo
A
conversa entre Pat e Pet (*), aparentemente leve e cotidiana, abre
espaço para uma reflexão profunda sobre como nos relacionamos com o tempo, o
desejo e as escolhas. Ao falar de caminhos, atalhos e até sonhos estranhos,
elas revelam algo que a psicanálise há muito aponta: a vida não é linear, mas
atravessada por desvios, faltas e invenções.
O caminho: construção e inscrição
simbólica
O
caminho aparece como aquilo que exige paciência e respeito às etapas. Ele não é
apenas uma trilha prática, mas o espaço onde o sujeito se inscreve na ordem
simbólica.
ü É
nele que o desejo se articula com o tempo e com a Lei.
ü Pat
reconhece isso ao dizer: “tudo apressado atropela o processo”.
ü O
caminho é, portanto, o lugar da construção: cada passo é uma dobra no tempo,
uma transformação silenciosa que nos constitui.
O atalho: sedução e risco do gozo
Os
atalhos são rupturas que testam. Eles prometem rapidez e satisfação imediata,
mas podem levar ao tropeço.
ü Na
psicanálise, o atalho é a tentativa de escapar da mediação do Outro, buscando o
objeto do desejo sem reconhecer a falta que nos estrutura.
ü Como
Pet afirma: “se for mal pensado, vira tropeço”.
ü O
atalho pode funcionar, mas também pode nos lançar de volta ao ponto de origem,
repetindo o trauma.
As linhas de fuga: invenção e escape do
sentido
Aqui
surge uma terceira dimensão: as linhas de fuga.
ü Elas
não são caminho nem atalho, mas brechas criativas que aparecem quando tudo
parece travado.
ü Nos
sonhos relatados — o labirinto sem saída, a praia com neve — vemos o
inconsciente em cena, produzindo imagens que rompem a lógica e revelam o Real.
ü A
linha de fuga é o que escapa à estrutura, abrindo espaço para novas formas de
existir. Pode ser uma conversa inesperada, uma ideia maluca ou até o gesto
banal de tomar um “café bomba”.
O cotidiano como palco do desejo
O
diálogo mostra que até os detalhes mais simples — arrumar a casa, preparar o
Natal, tomar café com leite condensado — são cenas onde o desejo se encena.
ü A
repetição desses gestos é uma forma de lidar com a falta, com o vazio que nunca
se preenche totalmente.
ü O
cotidiano é o mapa invisível onde o sujeito costura sentido, mesmo que
provisório.
A escolha e a falta
Quando
Pat pergunta se os atalhos ajudam ou atrapalham, ela se depara com aquilo que a
psicanálise chama de escolha forçada.
ü Não
há resposta definitiva, porque toda escolha é atravessada pela falta.
ü O
sujeito escolhe, mas nunca com garantia.
ü Como
Pet sintetiza: “a vida é escolher quando vale arriscar” — e esse risco é o
risco do desejo, de se perder, mas também de se reinventar.
Por enquanto
O
diálogo entre Pat e Pet é mais do que uma conversa de WhatsApp: é uma metáfora
da vida como um emaranhado de trilhas.
ü O
caminho é construção e inscrição simbólica.
ü O
atalho é teste e risco de gozo imediato.
ü A
linha de fuga é invenção, escape e abertura para o
novo.
Para
jovens de qualquer idade, essa leitura mostra que não existe resposta única. A
vida é como uma música feita de várias melodias — umas suaves, outras intensas,
outras que surgem do nada e mudam tudo. O importante é perceber que cada
escolha abre novas possibilidades, e que até os tropeços podem ensinar.
No
fim, talvez seja justamente o que escapa — a linha de fuga — que nos salva,
porque nos lembra que o desejo nunca se fecha e que sempre há espaço para
reinventar o caminho.
ANEXO
(*) Diálogo entre Pat e Pet
Pat:
Eu postaria ambos 🤷♀️
Pet:
A primeira nem existe mais kkk… se eu tentar recuperar vai nascer uma terceira 😂
Mas já que a última te agradou, missão cumprida ✨
Pat:
Ahhh entendi… era a resposta daquela pergunta antiga que eu tinha feito né 👀
Pat:
Feliz Natal 🎄🎅
Tava até agora arrumando as coisas, um caos aqui kkk
Pet:
O guri saiu agora, o irmão levou… foi atender um convite seu.
Pat:
Pra não dar burburinho, falei pra minha filha que ele viria como “amigo da
escola” 🙈
Pet:
Fez bem 👌
Pat:
É que tudo apressado atropela o processo…
O caminho precisa ser respeitado, os atalhos parecem fáceis, mas complicam
depois.
E o pai não ia aceitar nunca 😒
Pet:
Pois é… às vezes o caminho é longo, mas é o único que leva onde a gente quer
chegar 🚶♀️✨
Pat:
Falando em caminho, menina… acredita que sonhei que tava perdida num labirinto
ontem? 🤯
Acordei suada, parecia real demais kkk
Pet:
Nossa, eu também sonhei estranho… tava numa praia com neve 😅 nada a ver!
Pat:
Kkkkk parece até conversa de filme surreal.
Aliás, tu já viu aquele filme “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”?
Pet:
Jáaa! Amo! É bem isso: às vezes a gente quer apagar os atalhos que deram
errado, mas no fundo eles também fazem parte do caminho 💭
Pat:
Falou bonito agora 👏👏
Mas mudando de assunto: tu já provaste café com leite condensado? ☕🍬
Tô viciadaaaa
Pet:
Menina, claro! Aqui em casa a gente chama de “café bomba” kkkk 💣
Mas só tomo quando quero energia pra limpar a casa inteira 😂
Pat:
Hahaha vou adotar esse nome!
Pat:
Falando sério agora… tu acha que os atalhos ajudam ou só atrapalham? 🤔
Pet:
Depende… tem hora que um atalho salva tempo e energia, mas se for mal pensado,
vira tropeço.
Pat:
É… tipo quando a gente tenta pular etapas e depois tem que voltar tudo de novo 😅
Pet:
Exato! O caminho pode ser mais longo, mas ensina. Os atalhos só valem se não
roubam a experiência.
Pat:
Então no fim das contas… o caminho constrói, os atalhos testam. Se ajudam ou
atrapalham, depende da intenção 💭✨
Pet:
Perfeito! Caminho é aprendizado, atalho é risco. E a vida é escolher quando
vale arriscar 🚶♀️🌟
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