Sessenta Plus – Uma possível leitura da
questão
Por Hiran de Melo
O
envelhecer, especialmente após a aposentadoria, não é apenas uma etapa
cronológica, mas uma transformação existencial. O idoso, ao se ver na categoria
“60+”, experimenta uma mudança radical em sua relação com o mundo. O trabalho,
que por décadas estruturou o cotidiano, conferiu sentido e delimitou o espaço
de convivência, se dissolve. O tempo, antes preenchido por obrigações, abre-se
em um vazio que pode ser tanto oportunidade quanto ameaça.
O peso do passado e o esvaziamento do
presente
O
corpo carrega o acúmulo de fadiga, doenças não plenamente curadas e marcas de
uma vida de esforço. O núcleo familiar se reduz, os amigos se dispersam, e os
vencimentos diminuem. O mundo, que antes se mostrava como campo de
possibilidades, começa a se retrair. Não se trata apenas de deixar de sair de
casa, mas de perder o horizonte de sentido: para onde ir, com quem ir, e como ir?
O espaço e o ser-no-mundo
A
casa, que deveria ser abrigo, pode se tornar clausura. O espaço externo, antes
familiar, passa a ser percebido como risco: quedas, assaltos, insegurança. O
transporte, que deveria ampliar horizontes, se converte em barreira. O mundo se
distancia, e o idoso se vê cada vez mais confinado ao próprio interior. O
isolamento não é apenas físico, mas ontológico: o ser se vê apartado das
possibilidades de ser-com-os-outros.
O tempo do ócio e a ausência de destino
Alguns
tentam reencontrar sentido em atividades produtivas, retornando ao mercado de
trabalho. Mas esse retorno, muitas vezes, não é escolha livre, e sim
necessidade. O ócio, que poderia ser espaço de criação e contemplação, é
frequentemente vivido como vazio. A maioria não encontra destino para suas
saídas: os bares já não oferecem encontros significativos, os amigos se tornam
raros, e o tempo livre se converte em tempo suspenso.
A solidão como desvelamento
A
solidão, nesse contexto, não é apenas ausência de companhia, mas revelação da
condição humana: somos seres lançados em um mundo que, ao se estreitar, nos
confronta com nossa finitude. O isolamento mostra o limite da existência, mas
também abre a possibilidade de uma nova relação com o ser. O idoso, ao se ver
diante do vazio, pode descobrir que a questão não é apenas “para onde ir”, mas como habitar o tempo que resta.
Em
uma leitura mais profunda, o isolamento do idoso não é apenas um problema
social ou médico, mas uma experiência existencial: o mundo se retrai, o tempo
se esvazia, e o ser é chamado a confrontar sua própria finitude. A saída não
está apenas em caminhar, visitar amigos ou participar de atividades, mas em
reencontrar um modo de estar-no-mundo que devolva sentido ao cotidiano.
Caminhos de saída: o reencontro com o
sentido
Uma
oportunidade de reencontrar saída está em participar mais ativamente das
atividades propostas por organizações que oferecem comunidade e pertencimento.
As organizações maçônicas,
com sua tradição de fraternidade e serviço, podem abrir espaços de convivência
e de construção de sentido coletivo. As organizações religiosas, ao oferecerem rituais, encontros e
práticas espirituais, devolvem ao idoso a experiência de transcendência e de
estar ligado a algo maior que si mesmo. Já a psicanálise, ao propor uma escuta profunda e uma
análise das vivências, permite que o idoso se reconcilie com sua história,
elaborando perdas e descobrindo novas possibilidades de ser.
Assim,
o isolamento não precisa ser destino inevitável. Ao se abrir para comunidades
de pertencimento e para a reflexão interior, o idoso pode reencontrar o mundo
em novas formas de presença. O desafio não é apenas sair de casa, mas reencontrar
o sentido de
estar-no-mundo.
Leitura recomendada:
O impacto do isolamento no idoso –
LuCaS, publicado no grupo de WhatsApp
“1 -ILPB – LP-PA”, em 12/01/2026.
Perfeito!!!
ResponderExcluirO sentido de estar no mundo