Mérito, vazio e solitude
Por Hiran de Melo e Josivan Campos Brasil
Às vezes, a vida parece um jogo cujas regras foram explicadas de um jeito, mas a prática se mostra completamente diferente.
Imagine que você passou anos acreditando em um roteiro específico: esforçar-se, acreditar no merecimento e jogar limpo para garantir o sucesso. De repente, algo acontece e a ficha cai: o mundo não é tão justo quanto o manual prometia.
Essa descoberta marca o desabamento das nossas certezas — um momento que quase todos enfrentamos em algum ponto da jornada.
O chão que some
Quando alguém confessa que está perdendo a fé na ideia de que "quem se esforça sempre chega lá", o que sente não é uma tristeza comum. É uma espécie de tontura existencial. Afinal, se a regra que organizava a sua vida parou de funcionar, quem é você agora?
A reação natural é o recolhimento. Ir à praia e não suportar ficar lá nem meia hora, ou voltar para o quarto sem sequer tocar o mar, é o reflexo de um mundo externo que perdeu o brilho porque o mundo interno está em obras — ou em ruínas. Quando a nossa bússola de valores quebra, qualquer paraíso vira deserto.
A solidão como liberdade
Diante desse vazio, surge uma perspectiva necessária: a diferença entre estar sozinho e sentir-se só. Não precisamos viajar para fugir do que sentimos; o vazio tem o mapa de todos os nossos destinos e nos encontrará em qualquer lugar. No entanto, em vez de encarar isso como um fardo, podemos ver como uma oportunidade de redefinição.
Se o sistema lá fora — as recompensas da sociedade ou a lógica do mérito — falha ou se mostra injusto, o foco precisa voltar-se para dentro. A sugestão é substituir o "olhar de cobrança" pelo "olhar de descoberta".
O novo caminho
A grande lição desse desabafo é que a decepção com as regras do mundo pode ser, curiosamente, o início da liberdade real.
Antes: Você agia esperando que o mundo devolvesse algo em troca.
Depois: Você começa a agir porque escolheu aquele caminho, ciente de que o resultado é incerto, mas a escolha é sua.
Perder a fé em um conceito pronto dói porque nos deixa sem manual de instruções. Mas é justamente nesse vácuo que paramos de seguir roteiros escritos por terceiros e começamos a redigir o nosso próprio. Às vezes, o que precisamos não são novos caminhos, mas um novo jeito de enxergar as trilhas que já percorremos.
No fim das contas, a maturidade habita aí: na capacidade de apreciar a solitude de uma tarde qualquer, entendendo que, se o mundo lá fora parece caótico e sem lógica, a paz e a luz precisam ser construídas tijolo por tijolo, por nós mesmos.

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