Amada Aurora

Por Hiran de Melo

De vez em quando, minha neta vem me visitar. Ela tem oito anos e sempre me encanta com seu jeito de ser, tão diferente e, ao mesmo tempo, um pouco semelhante ao que eu era na mesma idade. É independente, forte, criativa. E, acima de tudo, não tem medo. Nisso nos distinguimos: eu fui educado sob o peso do medo, do terror. Ainda assim, nela encontro reflexos de mim, até onde minha memória alcança.

Ontem à noite, chegou e reinventou a sala. Pegou o sofá e, ao redor dele, dispôs cadeiras, formando um cercadinho. O sofá já era amplo, mas ela fez questão de delimitar o espaço para duas pessoas. Achei extraordinário: não era um refúgio apenas para si, mas uma bolha aberta, que convidava outros a participar. Era a bolha dela.

Fiquei observando. Em certo momento, uma amiga nossa entrou também no cercadinho e se deitou em uma das partes. Eu, distante, não quis intervir. Era apenas espectador, suficientemente afastado para não ouvir o que se passava, mas próximo o bastante para guardar a cena na memória.

Hoje pela manhã, ao acordar, vi que Aurora permanecia na mesma bolha, agora sozinha. A amiga que estivera com ela era adolescente — não de quinze, mas de vinte e um anos. Uma adolescência madura, quase adulta. Era mais amiga nossa do que dela, mas aos poucos se tornava também amiga dela.

Agora, pela manhã, Aurora estava só, assistindo a um desenho animado.

Perguntei se queria algo. Ela costuma comer muito pouco, o que às vezes me deixa aflito. Pediu suco de uva. Fui buscar, deixei ao lado e a deixei livre, sem intervir em seu espaço.

E me lembrei da minha infância. Também criava minhas bolhas. Não com cercadinhos, mas no quarto-escritório de meu pai — três metros por três metros, suficientes para erguer meus castelos. Fechava a porta e ali inventava mundos: exércitos de tampinhas de refrigerante, brinquedos improvisados. Papai não era de dar presentes.

O primeiro que recebi dele foi um relógio. Fiquei decepcionado. Um relógio, pai? Para quê? Eu não queria marcar o tempo. Mas não foi apenas um presente: antes de me entregar, ele perguntou à professora se eu merecia. O relógio veio como troféu, não como dádiva. Papai acreditava que só se recebe o que se merece.

Com meus filhos, fiz diferente. Presente é presente, dado de graça. Não porque mereçam, mas porque sou pai e quero oferecer. Quero sentir alegria em dar. Acho que meu pai não via felicidade nisso; para ele, a alegria estava no mérito.

Qual critério é melhor: o dele ou o meu? Não sei. Talvez não exista resposta definitiva. Não há soluções universais, apenas soluções adequadas a cada tempo, a cada pessoa, a cada lugar. Valores absolutos pertencem mais à religião do que ao espírito. O que alimenta o espírito vale mais do que o que alimenta a religião. O caminho importa mais que a meta.

Sim, é bom ter metas. Mas é melhor viver o caminho que leva até elas.

Também gosto de dar presentes quando meus filhos têm mérito. Mas nem preciso decidir: eles mesmos cobram. “Quero isso porque mereço”, dizem. Acho bom. Eles próprios se julgam.

Um bom dia por essas prosas.


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