Noite de Sexta-Feira, 13
Por Hiran de Melo
Conversamos,
muitas leituras. É um privilégio ter por perto quem sabe escutar e, na
compreensão do texto, vai além do escrito.
Eu estava com muito sono, cochilando. Quando a Maga 🧙♀️
chegou, precisei beber uma dose para despertar. Despertei — e depois o
problema, se assim pode ser chamado, foi dormir.
A
presença da Maga é dominante. Do meu celular tentou falar com a outra bruxa,
mas essa já havia voltado à hibernação. Fez falta, sim, mas sobrevivemos ao mar
de emoções. Os depoimentos do que se viveu — e ainda se vive — vêm como lavras
de um vulcão: queimam ao mesmo tempo que fertilizam.
A
Maga fala de algo que pulsa e salga: a terra, o mar, o céu e a alma.
Seu
semblante muda conforme desloca o eixo da conversa, do que narra. Pode sorrir
e, em seguida, chorar.
É
um privilégio ouvi-la, mas não dá para assistir de longe, imparcial, de
camarote. É como uma onda altíssima, poderosa, que nada detém. Se parar para
contemplar, ela te engole; se correr, ela te devora também. É fúria legítima,
genuína, pura natureza.
Assim
foi noite adentro, até a luz do sol começar a banhar as faces, os rostos, as
imagens que só a poesia possui o poder de captar.
Claro,
minha natureza — não tão ocupada de bruxo 🧙♂️ — se fez presente e suportou a onda.
Ah!
A outra bruxa amiga acordou no meio da madrugada, reclamou de não ter sido
devidamente chamada, mas foi. Essa é uma bruxa milenar, tanto que a tratamos
como Madame. Deixou o recado na forma de mensagens de fumaça e voltou a
hibernar.
E
eu, que já comprei o caldeirão, não sei 🤷♀️ o que fazer para despertar a paz que
habita naquele coração mágico.
Era
sexta-feira de carnaval. Hoje já é sábado, mas não se ouviam os foliões.
Chegavam, sim, os ecos dos gritos de pastores e sacerdotes que, em nome do
Cristo, ofereciam palavras de salvação. Não para esta vida, mas para a
eternidade.
Um falso e eterno carnaval para os que ficaram fora da folia da época.
Nós,
seres que insistem em ser, não nos deixamos tocar por nenhuma dessas folias:
nem pelas marchinhas, sambas, afoxés..., nem pelos que ficaram por opção ou por
falta de condições — físicas, mentais, financeiras... — diferentes do ser.
Somos
filhos da natureza primeira, atemporais, e sorrimos para os que não acreditam
em nós.
Nada
há o que fazer, nada há para aqueles que caminham alegremente na direção do
abismo, embriagados por álcool, por palavras, por batuques ou por hinos.
Não
há o que fazer por quem se move pelo espírito de rebanho.
O
texto se apresenta como uma narrativa poética que dramatiza o encontro entre o
eu consciente e forças arquetípicas que emergem do inconsciente. A noite, o
sono, as bruxas, o caldeirão, o carnaval e os hinos religiosos são imagens que
funcionam como símbolos de uma travessia interior.
Dinâmica psíquica
- Sono e despertar:
representam o trânsito entre consciência e inconsciente. O narrador oscila
entre o mundo cotidiano e o mergulho em conteúdos profundos.
- A Maga:
força feminina primordial, intensa e avassaladora. Sua fala conecta
elementos da natureza — terra, mar, céu, alma — e sua presença é como onda
ou vulcão: energia que destrói e fertiliza. É a irrupção do inconsciente
coletivo.
- A Madame:
a bruxa milenar, que aparece e desaparece, simboliza a sabedoria
ancestral, o aspecto oculto que se manifesta em sinais sutis e retorna ao
silêncio.
- O narrador-bruxo:
testemunha e participante, reconhece sua ligação com o mundo mágico, mas
ainda em posição de aprendiz. Seu “caldeirão” comprado é símbolo da
preparação para a alquimia interior, mas a dúvida sobre como usá-lo revela
que o processo de individuação está em curso.
Imagens simbólicas
- 🌊
A onda:
emoção avassaladora, impossível de ser ignorada. Representa a força
transformadora do inconsciente.
- 🌋 O vulcão: energia criativa e
destrutiva, dor que abre espaço para o novo.
- 🔥
O caldeirão:
recipiente da transformação, promessa de alquimia interior. Aqui aparece
como vazio, indicando que o narrador precisa descobrir como ativar sua
potência.
- 🎭
O carnaval ausente:
simboliza a coletividade, a máscara, mas sua ausência revela o conflito
entre celebração da vida e promessa de transcendência.
- ⛪
Os hinos religiosos:
contraponto ao carnaval, representam a busca de salvação eterna, mas
também a dissolução no espírito de rebanho.
- 🌌
A natureza primeira:
afirmação da autenticidade, da ligação direta com o essencial, fora das
ilusões coletivas.
Temas centrais
- Natureza e
espiritualidade: inseparáveis, pulsando como
dimensões da alma.
- Força feminina
arquetípica: as bruxas como mediadoras entre
mundos, trazendo caos e sabedoria.
- Individuação:
o narrador enfrenta a onda, suporta a fúria, e se reconhece como parte de
uma natureza maior.
- Autenticidade versus
rebanho: recusa
tanto a dissolução nas folias quanto nos hinos, afirmando-se como filho da
natureza primeira.
Síntese
O
texto é uma metáfora da iniciação: uma noite de sexta-feira, 13, carregada de
simbolismo cultural, torna-se palco para a revelação de forças ocultas. O
narrador é chamado a enfrentar a fúria da natureza psíquica, a reconhecer a
sabedoria ancestral e a escolher não se perder nas ilusões coletivas.
Cada
símbolo — onda, vulcão, maga, caldeirão, carnaval, hinos — é expressão de
forças internas que dramatizam o confronto entre o eu consciente e os
arquétipos que emergem do inconsciente. O resultado é uma narrativa que revela
tanto o perigo da dissolução quanto a possibilidade de transformação.
Mestre Melquisedec
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