Soneto
do Caminhante
Por
Hiran de Melo
Bendito seja o passo que descansa,
Ainda que trêmulo, exausto e lento.
O chão não traz certezas nem bonança,
Mas revela o existir em cada momento.
Sob o mesmo céu, em mútua aliança,
Levamos peso e brilho ao relento.
Se a dor te busca e a alma se cansa,
É prova de que o ser está atento.
Vencer não é o fim da fortaleza,
Pois forte é quem consegue o permanecer;
Seguir é não ceder à correnteza.
O sentido é vento: só resta o acolher.
A meta é nada; o passo é a beleza,
Na simples e fiel coragem de ser.
ANEXO: Depoimento do autor
Na
composição do Soneto do Caminhante minha intenção não foi escrever sobre
o herói que conquista o topo da montanha, mas sobre o homem comum que, com as
pernas pesadas, decide não parar.
O Ritmo do Cansaço
Quando
escolhi abrir com "Bendito seja o passo que descansa", quis
imprimir uma cadência que fosse quase um suspiro. Usei a pontuação e as pausas
(como em "trêmulo, exausto e lento") para que o leitor fosse
obrigado a diminuir a velocidade. O estilo aqui é mimético: o poema não
apenas fala de lentidão; ele obriga o leitor a ser lento.
A Estética da Vulnerabilidade
Muitas
vezes, na poesia, buscamos o "brilho" puro. No segundo quarteto, fiz
questão de colocar o peso ao lado do brilho. Estilisticamente,
isso cria um equilíbrio de texturas. Eu não queria um texto higienizado; queria
que o leitor sentisse o "relento" e a "correnteza". A
escolha de palavras como "dor" e "cansa"
serve para ancorar o soneto na realidade física, antes de elevá-lo à metafísica
do final.
O Desfecho: Do Verbo ao Ser
Nos
tercetos, mudei o tom. Saí da descrição do cenário para a afirmação filosófica.
- A Metáfora do Vento: Ao dizer que "O sentido é
vento", usei uma imagem propositalmente impalpável.
Esteticamente, isso serve para desorientar quem busca respostas prontas.
- A "Coragem
de Ser": Terminar o soneto com o verbo
"ser" é o meu fechamento de arco. O estilo deixa de ser sobre o
movimento externo (o caminhar) e passa a ser sobre o estado interno.
A Escolha do Soneto
Poderia
ter sido um verso livre, mas escolhi a forma fixa. Por quê? Porque o
soneto é uma estrutura rígida, quase como uma moldura de pedra. Colocar um tema
sobre "fragilidade" e "incerteza" dentro de uma forma tão
sólida cria uma tensão interessante: a liberdade do espírito tentando encontrar
beleza dentro das limitações da vida.
Este
depoimento reflete a minha busca por uma escrita que não apenas descreve a
jornada, mas que se torna, ela mesma, um porto seguro para quem está cansado,
eu mesmo.

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