Transitoriedade & Permanência

Por Hiran de Melo

Minha querida e valorosa amiga, sei que te amo, e sei também que me amas. Mas, então, por que não nos casamos? Por que sequer ousamos namorar?
A resposta, sempre dura, é que não me queres ver sofrendo.

Nossas almas caminham na mesma direção, mas em sentidos opostos, como rios que se aproximam sem jamais se fundirem. A tua é vitoriosa, livre, inquieta, embriagada pelo instante. Tu vives do sopro da novidade, da chama que se acende e logo se consome. Quando não estás tomada por esse fogo, até o pôr do sol se torna melancolia, como se o mundo perdesse o sentido sem a vertigem da paixão.

Eu, ao contrário, carrego uma alma que busca raízes, permanência, constância. Preciso da repetição que para ti é prisão; preciso da fidelidade que para ti é peso. Tu és o voo, eu sou a morada. Tu és o relâmpago, eu sou o silêncio da noite.

Eis o nó da questão: não nos falta amor, falta-nos convergência. O que em ti é liberdade, em mim é desamparo. O que em mim é cuidado, em ti é limite. Tu te alimentas da transitoriedade, eu da permanência. Tu és chama que precisa sempre de novo combustível; eu sou brasa que deseja durar.

Tenho até tentado te acompanhar, te emular. Abandonar o apego à constância, deixar-me levar pelos ventos, abrir novas janelas, caminhar por diferentes caminhos. Mas se nos tornamos demasiado semelhantes, o nó se aperta ainda mais: tua liberdade me sufoca, minha necessidade de raízes te aprisiona.

E assim seguimos, lado a lado, mas nunca juntos. Tu, sempre em busca do próximo horizonte; eu, sempre desejando que o horizonte se torne lar. Tu és o movimento, eu sou a permanência. Tu és a chama, eu sou a brasa.

Talvez seja justamente nesse desencontro que se revela o mistério da nossa amizade: um amor que não pode ser vivido, mas que insiste em existir. Um amor que não se consuma em posse, mas se sustenta em ausência. Um amor que não se realiza no tempo, mas se afirma no espaço invisível entre o desejo e a renúncia.

E nesse espaço, paradoxal e sagrado, habitamos. Tu, como quem busca sempre o novo. Eu, como quem deseja eternizar o instante. Somos dois viajantes que se reconhecem, mas não se fundem. E talvez seja essa impossibilidade que nos torna eternos.


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