A Noite em que o Sonho Me
Acolheu
Por Hiran de Melo
Ontem à noite foi
diferente — e não foi apenas diferente como quem muda de posição na cama ou
troca o travesseiro de lado. Foi diferente no sentido mais íntimo da palavra:
algo se deslocou dentro de mim, algo cedeu, algo aceitou.
Sempre fui resistente aos
atalhos do sono. Há em mim uma espécie de desconfiança quase moral diante dos
comprimidos que prometem aquilo que, para mim, deveria vir como graça: o
adormecer. Quando muito, aceitava o ritual simples de um chá — não tanto pelo
efeito, mas pela simbologia do cuidado. Ainda assim, até disso eu me esquivava,
vencido por uma preguiça que é menos física e mais existencial: a de preparar o
próprio repouso.
Mas ontem houve uma
concessão. Aceitei o comprimido. Pequeno, direto, sem poesia — apenas engolido
com água, como quem assina um acordo silencioso com a própria fragilidade.
Antes disso, cometi meus
erros habituais: mergulhei nos vídeos curtos, nesse fluxo incessante de imagens
que não pedem profundidade, apenas atenção fragmentada. E ali, nesse quase
automatismo, lembrei-me: “isso vai me roubar o sono”. Desliguei o celular não
como quem cumpre uma regra, mas como quem abandona um ruído. Deixei que o
silêncio fizesse o que sabe fazer — ou que o remédio fizesse por mim.
E adormeci.
O primeiro despertar veio
pela imposição do corpo. Os diuréticos que tomo não negociam com o sono; eles
exigem resposta. Levantei, cumpri o rito fisiológico e voltei. E aqui começa o
que, para mim, já é extraordinário: voltei a dormir sem esforço. Sem aquela
travessia longa, quase penosa, entre o acordar e o novo adormecer. Simplesmente
voltei.
Depois, acordei às seis.
Hora ambígua — já é manhã, mas ainda é noite para quem precisa de mais um pouco
de sonho. Deitei novamente. Dormi. Acordei às oito.
Tecnicamente, despertei
duas vezes. Na prática, tive uma continuidade que há muito não me visitava. E
isso, por si só, já seria digno de registro. Mas não é isso que importa.
O que importa é o sonho.
Sonhei — e sonhei como
não sonhava há tempos. Não houve angústia, não houve perseguição, não houve
aqueles símbolos truncados que mais confundem do que revelam. Foi um sonho
limpo, quase fora dos paradigmas que conheço. Não havia comparação possível com
outras noites.
Encontrei alguém. Uma
pessoa em busca de identidade — ou talvez em busca de reconhecimento. Ela
precisava ser vista como quem era. E, de algum modo, eu sabia como ajudá-la.
Orientei gestos, traços, sinais externos que pudessem traduzir uma pertença
interna. Ela era judia — e, ao assumir essa forma visível, foi reconhecida.
E então algo belo
aconteceu: ela foi acolhida.
Outras pessoas surgiram.
Depois mais. E mais. O ambiente foi se transformando, não por imposição, mas
por convergência. Era como se estivéssemos preparando uma festa — e talvez
estivéssemos mesmo. Uma celebração silenciosa da identidade reconhecida.
E eu estava ali,
ajudando.
Não sei por que, mas eu
fazia parte. Não como estrangeiro, não como visitante, mas como alguém que
pertence. Havia crianças, havia alegria, havia uma hospitalidade que não exigia
explicação. Eu estava em casa — ainda que aquela casa não fosse, em termos concretos,
a minha.
Entre um despertar e
outro, o sonho continuava. Não havia ruptura, não havia reinício. Era como um
filme que apenas pausava para que o corpo respirasse, mas que aguardava intacto
o retorno do espectador.
E aqui reside um fenômeno
que sempre me intrigou, mas que ontem se revelou com mais nitidez: eu não
apenas sonho — eu assisto ao meu sonho.
Sou personagem e
espectador.
Estou dentro da cena e,
ao mesmo tempo, sentado diante dela. Sou protagonista e público. Um dublê de
mim mesmo. E essa duplicidade não me paralisa; ela me acompanha. À medida que o
despertar se aproxima, o espectador em mim ganha força. Ele percebe o fim
iminente e, como quem assiste a um bom filme, deseja que continue.
Quando o sonho é bom, a
consciência se aconchega nele. Ela não quer interferir, não quer analisar, não
quer desmontar — apenas permanecer. É como se dissesse: “deixe-me ficar mais um
pouco aqui”.
Mas quando o sonho é
perturbador, essa mesma consciência se torna agente de ruptura. Ela reconhece:
“isso não é real”. E, ao reconhecer, tenta escapar. Faz esforço para acordar.
Busca uma saída.
Às vezes, essa saída vem
pelo corpo.
Uma dor na perna. Um
incômodo súbito. Um chamado fisiológico. O corpo desperta porque a mente já
decidiu sair. É como se a consciência puxasse o corpo de volta à vigília.
Ontem não.
Ontem, a consciência quis
ficar.
E talvez seja isso o mais
revelador: não foi apenas um sonho bom — foi um sonho aceito pela consciência.
Um acordo raro entre o que emerge do inconsciente e o que observa com lucidez.
Ontem, pela primeira vez
em muito tempo, não quis acordar.
E, no fundo, talvez o que
eu tenha experimentado não tenha sido apenas uma noite de sono melhor — mas uma
breve reconciliação entre aquilo que sou e aquilo que, em silêncio, me habita.
Autoanálise de um Sonho
Acolhedor
Por Hiran de Melo
Ao reler o que escrevi,
percebo que não registrei apenas uma noite — registrei um deslocamento interno.
E, como em toda autoanálise honesta, sou obrigado a admitir: o sonho não começa
no sonho. Ele começa na resistência.
Minha recusa histórica
aos “atalhos do sono” revela algo que vai além de uma simples preferência. Há
em mim uma exigência de que o descanso seja merecido, conquistado quase
eticamente. Dormir, para mim, deveria ser um efeito natural de uma ordem
interior — não um resultado químico. Ou seja, existe um superego vigilante que
desconfia de qualquer mediação externa. Aceitar o comprimido foi, portanto,
mais do que um gesto prático: foi uma rendição simbólica. Eu cedi.
E ceder, nesse caso, não
foi fraqueza — foi abertura.
O curioso é que, antes
dessa rendição, eu ainda me agarrei ao hábito fragmentador dos vídeos curtos.
Isso me revela um conflito: ao mesmo tempo em que busco profundidade (o sono
como experiência quase sagrada), me saboto com superficialidade. Como se houvesse
em mim duas forças — uma que deseja mergulhar e outra que teme o que pode
encontrar nesse mergulho.
Quando desligo o celular,
não abandono apenas um hábito: abandono uma defesa.
E então durmo.
O dado mais
significativo, no entanto, não é apenas o adormecer, mas a continuidade do sono
após o despertar. Isso, em termos psíquicos, sugere uma diminuição da ansiedade
de vigília. Algo em mim deixou de estar em estado de alerta constante. O corpo
acorda, cumpre sua função, mas a mente não entra em pânico. Ela confia o
suficiente para voltar.
Isso já indica um
rebaixamento das defesas.
Mas é no sonho que o
conteúdo latente se apresenta com mais clareza.
A figura central do sonho
— “alguém que precisa ser reconhecido” — não me parece, após reflexão, ser
verdadeiramente um outro. Trata-se de uma representação deslocada de mim mesmo.
Uma parte minha que busca identidade, que deseja ser vista como é, mas que
ainda não encontrou os sinais adequados para se manifestar no mundo.
O fato de essa pessoa ser
judia é altamente simbólico. O judaísmo, aqui, não deve ser lido apenas como
identidade religiosa, mas como pertencimento, tradição, marca visível de uma
história. Ou seja: o sonho fala de uma identidade que precisa ser assumida
externamente para ser reconhecida internamente.
E o mais revelador: eu
sei como ajudá-la.
Isso indica que o saber
não está ausente — ele está recalcado ou subutilizado. Existe em mim uma
consciência capaz de orientar minha própria individuação, mas que, na vigília,
talvez não encontre espaço para agir com a mesma fluidez.
Quando essa figura assume
seus traços e é acolhida, o que vejo não é apenas a aceitação dela — é a
fantasia (ou ensaio) da minha própria aceitação.
A chegada progressiva das
pessoas, a formação da comunidade e o preparo da festa são imagens de
integração psíquica. Partes dispersas vão se reunindo. O que antes era
fragmentado começa a ganhar coesão. A festa, nesse contexto, é a celebração
dessa integração.
E eu participo.
Esse é um ponto crucial:
não estou à margem. Não sou observador externo da cena de acolhimento — sou
agente dela. Isso sugere que, ao menos no espaço onírico, já não me percebo
como estrangeiro de mim mesmo.
“Eu estava em casa.”
Essa frase, talvez, seja
o núcleo afetivo do sonho.
Mas há ainda um elemento
mais sofisticado, quase metapsicológico: minha dupla posição — personagem e
espectador.
Essa experiência de
“dublê” revela um nível de consciência que se mantém ativo mesmo durante o
sonho. É como se uma instância do eu não se dissolvesse completamente no
inconsciente, permanecendo como testemunha. Isso pode ser compreendido como uma
função do ego observador — uma parte de mim que não apenas vive, mas acompanha
o que é vivido.
O interessante é que essa
instância não interfere — ela avalia.
Quando o sonho é
agradável, ela consente. Quando é angustiante, ela intervém e busca interromper
a experiência. Ou seja, há um diálogo constante entre o inconsciente que produz
e a consciência que regula.
Mas, nesta noite
específica, algo raro aconteceu: não houve conflito entre essas instâncias.
A consciência quis ficar.
Isso é profundamente
significativo. Sugere que o conteúdo inconsciente não era ameaçador, não exigia
repressão, não acionava mecanismos de defesa. Pelo contrário: era compatível
com o desejo consciente. Havia harmonia.
Esse “acordo raro” que
mencionei talvez seja, em termos psicanalíticos, um momento de redução da
censura psíquica. O inconsciente pôde se expressar sem distorções angustiantes,
e o consciente pôde acolher sem necessidade de fuga.
E aqui retorno ao início:
à aceitação do comprimido.
Talvez o remédio não
tenha sido apenas um indutor do sono, mas um facilitador da suspensão do
controle. Ao abrir mão do domínio absoluto sobre o próprio adormecer, permiti
também que outras estruturas internas relaxassem.
Em outras palavras: ao
confiar no corpo, dei passagem ao inconsciente.
E o inconsciente,
surpreendentemente, não me atacou — me acolheu.
Por isso, o mais
importante não é que eu tenha dormido melhor. É que, por algumas horas,
experimentei a possibilidade de existir sem conflito interno imediato.
Não quis acordar porque,
naquele espaço, eu não estava dividido.
E talvez essa seja a
interpretação mais honesta que posso fazer:
o sonho não foi apenas uma produção do inconsciente —
foi uma breve experiência de unidade.
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