O Quebra-Cabeça
Por Hiran de Melo
Acordei várias vezes
durante a noite, mas não posso dizer que despertei.
Havia algo que me chamava de volta — não um sonho, mas um retorno. Sempre o
mesmo cenário, sempre o mesmo erro, sempre o mesmo cansaço de existir em
pedaços.
Meu carro se desmanchava.
Não era um acidente. Não
havia choque, nem violência externa. Ele simplesmente se desfazia, como se
nunca tivesse sido inteiro. E ali, diante de mim, restavam as peças — frias,
possíveis, silenciosas.
Eu as reconhecia. Eu sabia, em algum lugar de mim, que eram montáveis.
E então eu tentava.
Montava uma parte,
desmontava outra. Errava na ordem, na lógica, na esperança. Havia um saber em
mim que não se realizava nas mãos.
E quanto mais eu tentava acertar, mais me perdia naquilo que parecia simples.
O erro não era um
acidente. Era um destino que se repetia.
Cansado, eu queria
desistir.
Mas era nesse exato instante — quando a desistência me tocava como um alívio —
que eu acordava.
Como se houvesse em mim um vigia que não permitisse o fracasso completo.
Como se até o colapso me fosse negado.
E então eu voltava.
Voltava ao sonho como quem retorna ao próprio enigma.
Dessa vez, não estava
sozinho.
Alguns meninos se
aproximavam. Não perguntavam nada. Não julgavam meu erro. Apenas começavam a
montar o carro comigo — ou talvez por mim, ou talvez apesar de mim.
Havia leveza em seus gestos. Uma liberdade que não conhecia o peso da exatidão.
E eles conseguiram.
Montaram o carro.
Mas faltava o motor.
E algumas peças sobravam.
Ali estava, diante de
mim, algo inteiro — mas sem vida.
Uma forma correta, mas incapaz de ir.
Um corpo sem impulso.
Uma existência sem desejo.
E as peças que sobravam
me olhavam como perguntas que eu não sabia fazer.
Foi então que compreendi
— não como quem resolve, mas como quem aceita o abismo:
Eu não estava tentando
montar um carro.
Eu estava tentando montar a mim mesmo.
E falhava.
Falhava porque acreditava
que havia uma forma certa, uma ordem justa, uma completude possível.
Falhava porque ignorava que sempre sobra algo — e que é justamente esse resto
que nos constitui.
Os meninos em mim ainda
brincam de criar formas.
Mas o motor… o motor não se monta.
Ele arde.
Ele não obedece à lógica
das peças, nem à disciplina das mãos.
Ele não se encaixa — ele irrompe.
E talvez seja por isso
que eu erro tanto:
porque tento construir com método aquilo que só pode nascer como chama.
Hoje, ao lembrar do
sonho, já não sinto o mesmo desespero.
O carro continua se
desfazendo.
Eu continuo tentando.
Os meninos ainda aparecem.
E o motor ainda falta.
Mas algo mudou.
Já não busco mais o
encaixe perfeito.
Já não temo as peças que sobram.
Já não acordo no instante da desistência.
Agora, permaneço.
Permaneço diante do
incompleto como quem contempla um mistério —
não para resolvê-lo, mas para habitá-lo.
Porque talvez a vida não
seja um quebra-cabeça a ser fechado,
mas um enigma que só se revela
àqueles que aceitam viver
sem jamais terminá-lo.
Análise do sonho e do testemunho
Por Hiran de Melo
Eu falo desse sonho como
quem ainda está dentro dele.
Não foi apenas uma
experiência noturna — foi um encontro comigo mesmo em um estado em que já não
consigo mentir. O que vi ali não era um carro. Era a minha estrutura psíquica
exposta, desmontada, sem disfarces.
O que mais me marcou não
foi o fato de o carro se desfazer, mas a naturalidade com que isso acontecia.
Não houve trauma, nem choque. Isso me faz pensar que essa fragmentação não é um
evento recente — ela já está em curso há muito tempo dentro de mim. Talvez eu
apenas tenha começado a enxergá-la.
Quando me vejo tentando
montar o carro, reconheço um esforço que me acompanha na vida desperta: o de
organizar quem eu sou, de dar coerência à minha existência, de fazer sentido.
Mas no sonho, como na vida, há um descompasso doloroso — eu sei o que fazer,
mas não consigo fazer. Há um saber que não se traduz em ação. Isso revela uma
divisão interna: uma parte de mim compreende, outra não consegue sustentar.
O mais inquietante é a
repetição do erro. Não é um erro qualquer — é um erro que insiste. Isso me leva
a perceber que não estou tentando acertar, mas repetindo algo que ainda não
elaborei. Como se houvesse em mim uma cena inconclusa que precisa ser revivida
até que eu possa, de alguma forma, significá-la.
Quando surge a vontade de
desistir, sinto que estou diante de um limite real. Ali seria o ponto de
colapso — o momento em que eu reconheceria minha incapacidade total de
controle. Mas eu acordo. Isso me faz pensar que existe em mim uma instância que
me protege desse encontro radical com a falha. Um “vigia interno” que
interrompe a queda antes que ela se complete. Não me deixa cair totalmente —
mas também não me deixa atravessar o que preciso.
Os meninos… eles me
afetaram profundamente.
Sinto que representam
algo mais antigo em mim — uma dimensão menos rígida, menos exigente. Eles não
carregam o peso do acerto. Eles simplesmente fazem. E, curiosamente, conseguem
montar o carro — algo que eu, com todo o meu esforço consciente, não consegui.
Mas o que eles constroem
é incompleto.
O carro sem motor me toca
de forma quase insuportável. Porque ali está uma verdade que reconheço: consigo
sustentar formas, papéis, estruturas… mas sem vida interna. Sem impulso. Sem
desejo.
Isso é o mais difícil de
admitir.
Não se trata de
incapacidade de funcionar — trata-se de funcionar sem energia vital. De existir
sem movimento próprio.
E então vêm as peças que
sobram.
Essas peças me perturbam
mais do que o carro desmontado. Porque elas representam aquilo que não consigo
integrar. São partes de mim que não encontram lugar na imagem que tento
construir de quem sou. E talvez, inconscientemente, eu esteja tentando eliminá-las,
ignorá-las… quando, na verdade, são elas que carregam algo essencial.
Quando, no sonho,
compreendo que estou tentando montar a mim mesmo, algo muda. Não é uma solução
— é um reconhecimento.
Percebo que meu
sofrimento não está no fato de estar fragmentado, mas na exigência de me tornar
inteiro de uma forma idealizada. Há em mim uma crença de que existe uma versão
correta de mim mesmo — completa, coerente, sem sobras. E é essa crença que me aprisiona
na repetição.
O motor… ele é o ponto
mais enigmático.
Sinto que ele representa
algo que não pode ser construído deliberadamente. Não é uma peça técnica. Não é
algo que eu possa encaixar com esforço. Ele está mais próximo do desejo,
daquilo que me move de forma autêntica. E talvez eu tenha me afastado disso —
tentando organizar a vida por fora, enquanto por dentro falta aquilo que
realmente impulsiona.
Hoje, ao revisitar esse
sonho, percebo uma mudança na minha posição.
Antes, eu estava tomado
pela angústia de não conseguir montar. Agora, começo a aceitar que talvez não
se trate de montar perfeitamente. Que talvez a incompletude não seja um erro,
mas uma condição.
Ainda me sinto dividido.
Ainda me percebo em pedaços.
Mas já não vejo isso
apenas como falha.
Vejo como estrutura.
E talvez, pela primeira
vez, eu esteja começando não a me consertar —
mas a me escutar.
Aceitar o q somos,nos torna mais humano.
ResponderExcluir