O
Balanço Invisível
Por
Hiran de Melo
Há um momento na vida em que as contas deixam de ser
números
e passam a ser silêncios.
Não os silêncios vazios —
mas aqueles que pesam como perguntas não respondidas.
Ele caminhou com metas no bolso,
como quem carrega pequenas bússolas
tentando convencer o destino a seguir um traçado.
E, de fato, muito do que sonhou tomou forma:
as paredes erguidas,
os livros escritos,
os filhos formados,
as árvores lançando sombra sobre o tempo.
Mas a vida — essa artesã do invisível —
não mede o homem apenas pelo que ele constrói,
e sim pelo que floresce no outro por causa dele.
E foi aí que o chão cedeu.
Porque havia uma meta
tão essencial
que nem precisou ser dita.
Como o ar —
só percebido quando falta.
Amar.
Não apenas amar com a intensidade de quem entrega,
mas com a delicadeza de quem alcança.
Amar a ponto de ser sentido.
Amar a ponto de ser reconhecido.
Ele amou.
Disso não há dúvida.
Amou como quem oferece um rio inteiro —
mas talvez sem perceber
se havia sede na margem.
E então descobriu, tarde demais,
que o amor não é o que se sente,
mas o que o outro consegue receber.
E essa descoberta
não chega como um grito,
mas como uma espécie de cansaço na alma.
Chamou de fracasso.
E talvez fosse.
Mas há fracassos que são apenas nomes provisórios
para compreensões tardias.
E, no entanto, havia também um outro silêncio —
mais antigo, mais fundo —
que nunca coube em meta alguma.
O de não ter sido plenamente conhecido.
Houve sempre algo nele
que atravessava os encontros sem ser tocado,
como uma sala acesa
cuja porta ninguém percebeu.
Não por descuido dos outros,
nem por dureza do mundo —
mas porque há dimensões do ser
que não se oferecem com facilidade,
nem se revelam por inteiro.
Ele esteve presente,
falou, construiu, amou, ensinou —
mas, ainda assim,
algo nele permaneceu intocado,
não por rejeição,
mas por mistério.
E talvez tenha faltado,
não apenas que o amassem melhor —
mas que o vissem mais fundo.
Não como papel, função ou gesto,
mas como inteireza.
E nisso não há acusação.
Apenas constatação.
Porque também ele,
em sua própria travessia,
talvez não tenha alcançado totalmente
o território invisível dos outros.
Assim, o que faltou não é falha —
é condição.
A incompletude silenciosa
de todo encontro humano.
E ele compreende isso
sem amargura.
Como quem olha para o céu
e aceita que nenhuma mão
o tocará por inteiro.
Porque há partes do ser
que não foram feitas para serem possuídas —
nem mesmo pelo amor.
Ainda assim, ele seguiu.
O homem que ensina a ler
acende luz nos olhos do mundo.
O homem que caminha com outros
na direção de uma sociedade mais justa
não anda sozinho —
ainda que se sinta só.
Ele construiu uma casa,
e dentro dela, mais do que paredes,
plantou permanências.
Cada prestação paga
era também uma afirmação silenciosa:
“eu fico”.
E no quintal,
as árvores cresceram sem pressa —
como tudo que é verdadeiro.
O abacateiro, o jambo, a pitangueira…
nenhuma delas perguntou
se foi amado corretamente.
Apenas deram frutos.
Talvez a natureza saiba
o que o homem esquece:
que dar já é, em si, uma forma de sentido —
ainda que não devolvida na mesma medida.
Seus filhos — os próximos —
carregam diplomas e destinos.
São continuidades conscientes de sua presença.
Mas há também os outros —
os que cresceram à margem de sua história direta.
E um deles, especialmente,
ergue-se como uma pergunta viva:
teria sido diferente…
ou teria sido exatamente por isso?
Às vezes, a ausência
não é apenas falta —
é também uma forja.
E então o homem,
diante do espelho que o tempo lhe oferece,
não vê um ser completo
nem um ser fracassado.
Vê um ser em travessia.
Um homem que construiu quase tudo
e, ainda assim,
descobre que o essencial
não se constrói —
se aprende.
E talvez a maior verdade,
a mais silenciosa de todas,
seja esta:
não é tarde para compreender o amor —
mesmo quando já não há a quem oferecê-lo
da mesma forma.
Porque o amor que não chegou ao outro
e o homem que nunca foi inteiramente alcançado
podem, enfim,
se encontrar no mesmo ponto:
o de uma aceitação serena
daquilo que falta.
E esse encontro,
sem plenitude
mas com lucidez,
também é uma forma de redenção.
Anexo 1- descrição da imagem ilustrativa ao poema
Uma cena simbólica ao
entardecer: um homem observa um caminho iluminado pelo pôr do sol, enquanto ao
redor surgem fragmentos de sua vida — casa, livros, filhos, árvores e memórias.
Elementos como mãos que se estendem, rostos que se aproximam sem se tocar e uma
“porta acesa” sugerem o amor vivido, mas nem sempre sentido. Tudo é envolto por
uma atmosfera quente e contemplativa, transmitindo a ideia de travessia,
incompletude e reconciliação interior.
Anexo 2 –
texto de referência
O Balanço de uma Vida:
Metas e Conquistas
O autor inicia refletindo
sobre um conjunto de regras e metas que estabeleceu para si mesmo com o
objetivo de alcançar a felicidade. Embora tenha atingido a maioria, uma meta
implícita e fundamental permaneceu incompleta.
1. A Meta Incompleta: O
Amor Compartilhado
Esta era a meta que
parecia mais óbvia, tanto que nem precisava ser anunciada.
O objetivo: Ter uma
companheira para amar e, crucialmente, que ela se sentisse amada por ele.
O resultado: O autor
confessa que, embora tenha amado suas companheiras, nenhuma delas se sentiu
plenamente amada. Ele define esse aspecto como um "grande fracasso" e
se descreve hoje não como um homem feliz, mas como um "homem
sofrido".
2. Metas Educacionais e
Sociais
O autor destaca objetivos
voltados para o crescimento mútuo e a construção de uma sociedade melhor:
Educação: Aprender a
contar e a ler para poder ensinar o próximo.
Inspiração: Ter "luz nos olhos" para
iluminar o próprio caminho e o caminho dos outros, criando uma parceria onde
todos se iluminam mutuamente.
Sociedade: Caminhar na mesma direção que os
outros em busca de uma sociedade mais justa, igualitária e de homens livres.
3. Conquistas Pessoais e
Estilo de Vida
Nestas categorias, o
autor celebra vitórias concretas:
Trabalho: Conseguir o sustento através do que
gosta de fazer, trabalhando com prazer e sendo relativamente bem remunerado por
isso.
Moradia: Realizar o sonho
de sair do aluguel e construir a casa própria. Ele menciona, com bom humor, que
ainda faltam 19 prestações do financiamento da Caixa, mas que o importante é
poder pagá-las.
Natureza: Ter um gramado verde em casa e o
privilégio de plantar árvores (como abacateiro, jambo e pitangueira) e saborear
seus frutos.
Intelecto: O sonho de escrever livros, tendo
publicado vários ao longo da vida.
4. Reflexão sobre a
Família e os Filhos
O autor finaliza fazendo
um balanço sobre sua descendência:
Filhos Próximos: Conseguiu formar todos os
filhos que cresceram ao seu lado; todos possuem curso de graduação e seguiram
seus próprios caminhos.
Filhos Distantes: Menciona a existência de
outros filhos, de outras mães, que não cresceram com ele. Destaca um deles em
especial, a quem descreve como um "homem adulto e vencedor",
ponderando que talvez ele tenha se tornado ainda mais forte por não ter tido a
presença do pai.
5. Acrescente que o poema
descreve o sentimento de quem nunca se sentiu plenamente conhecido, acolhido na
sua inteireza e sendo assim amado. Todavia, não reconhece isso como rancor,
apenas como a incompletude humana.
Anexo 3
1. Existência como travessia
O poema coloca o homem
diante de um balanço que não é contábil, mas existencial. Ele descobre
que, apesar das conquistas concretas, há um vazio essencial — o amor não
plenamente recebido, o reconhecimento não alcançado.
Na chave existencialista, isso é a experiência da finitude: o ser humano
nunca é completo, mas sempre em travessia. A espiritualidade aqui não busca
eliminar a falta, mas dar sentido à incompletude.
2. O amor como experiência espiritual
O texto afirma que “o
amor não é o que se sente, mas o que o outro consegue receber”. Essa frase ecoa
uma visão espiritual-existencialista: o amor não é posse, nem intensidade
isolada, mas encontro.
O fracasso em amar
plenamente não é apenas falha, mas condição humana. A espiritualidade
existencialista reconhece que o amor é sempre limitado, mas ainda assim é a
via pela qual o ser se transcende.
O gesto de dar — como as
árvores que frutificam sem perguntar se foram amadas — é uma metáfora da graça:
o sentido espiritual que se manifesta no simples ato de oferecer.
3. O espelho e a aceitação
Quando o homem se vê “em
travessia” diante do espelho do tempo, ele não encontra plenitude nem fracasso,
mas um ser em processo.
Aqui está o núcleo existencialista: o ser humano é projeto inacabado,
sempre em construção.
A espiritualidade entra
como aceitação serena dessa condição. Não se trata de negar a falta, mas
de acolhê-la como parte da verdade do ser. Essa aceitação é uma forma de redenção
silenciosa.
4. A ausência como forja
O poema insiste que “às
vezes, a ausência não é apenas falta — é também uma forja”.
Na perspectiva espiritual
existencialista, a ausência é o lugar onde o ser se abre ao mistério. O
que não foi vivido plenamente torna-se espaço de transcendência.
Assim, o homem descobre que o essencial não se constrói, mas se aprende
— e esse aprendizado é espiritual, porque nasce do confronto com o limite.
Síntese
|
Tema |
Existencialismo espiritual |
|
Travessia |
O ser humano é
processo, nunca plenitude |
|
Amor |
Não é posse, mas
encontro e doação |
|
Espelho |
Reconhecimento da
incompletude como verdade |
|
Ausência |
Espaço de
transcendência e forja espiritual |
|
Redenção |
Aceitação serena da
falta como sentido |
Conclusão
Na leitura espiritual
existencialista, “O Balanço Invisível” mostra que a vida não se mede apenas
pelo que se constrói, mas pelo que se floresce no outro e pelo que se aceita
em si.
O amor, mesmo falho, é
caminho de transcendência. A ausência, mesmo dolorosa, é forja de sentido.
E a redenção não está em
alcançar plenitude, mas em habitar a incompletude com lucidez e serenidade
— o que é, em si, uma forma de espiritualidade existencial.
Reconhecer,o mais lindo do ser.
ResponderExcluirAmor, sentimento sentido de tantas formas, porém com o mesmo propósito.