A Senhora da Própria Falta

Por Hiran de Melo

"Houve um tempo em que eu acreditava que o meu ouro só brilhava se fosse refletido nos olhos de alguém. Eu chamava isso de amor. Eu buscava um encaixe, uma costura perfeita que estancasse o vazio, como se um filho, um marido ou um altar pudessem ser o ponto final da minha história. Naquele tempo, o meu desejo era um pedido de socorro: 'Diga-me quem sou, porque eu não suporto não saber'.

Eu era romântica, mas era uma doçura que me sangrava. O meu gozo estava na repetição dessa espera, naquela dor bruta que eu sentia no suor e nas lágrimas quando o outro não chegava. Eu achava que sofrer por amor era o que me tornava profunda. Que equívoco... a profundidade estava no abismo, não no sofrimento.

Hoje, eu ainda sou romântica, mas sou, sobretudo, bruta com o que me anula.

Descobri que o vazio que eu tanto tentava preencher não era um defeito de fabricação. É o meu motor. Aprendi que não fomos feitos para alguém específico, e essa é a notícia mais libertadora que já recebi. Se não há um 'destino' escrito, eu posso escrever a minha própria poesia.

O meu brilho agora não é mais para ofuscar a falta, é para iluminar o contorno dela. Eu aprendi a fechar ciclos sem precisar que o outro me dê o adeus. Eu mesma o dou. Eu preservo a minha energia, não por egoísmo, mas por assunção. Antes, eu era uma pergunta sem resposta; hoje, sou a própria escrita, com todas as vírgulas, pausas e, principalmente, com o meu ponto final.

Não busco mais a completude. Aceito a minha inteireza feita de pedaços. Sou a Menina de Ouro que entendeu que o ouro não é o que eu tenho, mas a coragem de ser, enfim, o meu próprio lugar."


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