O Amor que se Faz Herança
Por Hiran de Melo
Há
instantes em que o tempo se suspende e a vida se revela como claridade
interior. Não é o brilho que domina, nem o poder que se impõe, mas a ternura
que se oferece como morada da alma. Nesse espaço aberto, o ser encontra o outro
não como sombra ou extensão, mas como presença viva que inspira — chama própria
que acende o caminho e desperta o iniciado para o mistério da comunhão.
O
amor, quando verdadeiro, dissolve hierarquias. Ele não se curva diante de
coroas, não se mede em títulos, não se afirma em posse. O amor é pertença, é
comunhão, é a clareira onde cada ser pode habitar sem máscaras, reconciliando o
humano e o divino. É nesse gesto de acolhimento que se funda a eternidade: não
como cronologia, mas como instante que se demora, como luz que insiste em
atravessar a pedra e revelar o sagrado que respira no silêncio do templo
interior.
Assim,
a grandeza não é espelho, mas fonte. Não é reflexo de um ego, mas origem que
destina o caminho e integra o ser. O que permanece não é o nome gravado em
monumentos, mas o exemplo de vida que se oferece como herança simbólica. Quando
o esquecimento tenta soterrar, a memória se ergue como sol que retorna,
lembrando que há sempre uma presença por quem o tempo se curva e a luz se faz
destino.
O
convite que se abre diante de nós é simples e radical: transformar-se em
testemunha de ternura. Ser aquele que, com o gesto cotidiano, revela que o amor
humano pode tocar o divino, porque nele se manifesta o arquétipo da totalidade.
Não porque ordena, mas porque inspira. Não porque domina, mas porque se
entrega.
Que
cada vida se torne templo vivo, altar de silêncio e de acolhimento. Que cada
passo seja claridade que desperta o mundo para a verdade de que amar é
deixar-se ser, é oferecer-se como caminho de iniciação. E que, ao final, a
herança não seja de poder ou de títulos, mas de luz — a luz que nasce do
encontro, a luz que permanece na comunhão, a luz que se faz eternidade.
Este
é o legado que podemos deixar: não monumentos de pedra, mas gestos de ternura.
Não tronos, mas clareiras. Não hierarquias, mas pertença. Pois quando se ama
com vigor, com entrega e com humanidade, esse amor se torna herança. Esse amor
se torna luz — símbolo vivo que atravessa gerações e permanece como arquétipo
de transformação, como chama que ilumina o caminho dos que buscam a Verdade.
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