O Fulgor de
Nefertari
Lançado ao mundo sob o signo do alto,
Fui o sol que tudo desvela e tudo consome.
Mas o horizonte só se fez morada
quando,
ao lado, o Ser se fez presença.
Não há rastro de mando, nem sombra de posse.
O amor não é obra da vontade,
é a oferta da clareira onde o outro habita.
Sem títulos, sem pesos: apenas o estar.
Ela é o porquê da luz.
Não pelo comando que ordena o brilho,
mas pelo apelo que desperta o fogo.
Em Abu Simbel, o tempo não é cronologia,
é o instante em que a pedra e o raio se fundem.
A luz não busca a máscara do trono,
busca o encontro de quem se pertence no aberto.
Sua grandeza não é espelho, é fonte.
Não é extensão de um ego,
é a origem que me destina ao caminho.
E quando o esquecimento tenta soterrar o nome,
o sol insiste na memória das pedras.
Pois diante do sagrado que nela respira,
até o que é divino se cala em reverência.
Nefertari: templo de carne, altar de silêncio.
Onde o tempo não passa, mas se demora.
Por ela, o sol se faz destino.
Por ela, o amor se faz luz.
Mestre
Melquisedec
Breve Considerações
Por Hiran de Melo
1. A Queda da Inflação do Ego
O início descreve o sol que "tudo
desvela e tudo consome". Simbolicamente, o sol sem o contraponto da terra
ou da lua é uma força de seca e dominação — um intelecto que tudo vê, mas que
não permite que nada cresça.
A transição para "o horizonte só se fez
morada" marca a cura da inflação. O indivíduo percebe que a luz
sozinha não constrói um lar; é necessário um limite, um horizonte, onde a luz
encontre a matéria. O "Mestre" aqui deixa de ser o dominador do mundo
para se tornar o habitante da própria alma.
2. A Autonomia da Contraparte Interior
Um dos pontos mais profundos deste poema é a
afirmação: "Sua grandeza não é espelho, é fonte".
Ø O Espelho: Representaria uma projeção, onde o homem vê na mulher (ou no seu
feminino interior) apenas o que ele quer ver de si mesmo.
Ø A Fonte: Reconhece que ela tem uma existência independente e primordial. Ela é a
"origem" e o "destino".
Ao dizer que ela não é a "extensão de um
ego", o poema descreve o momento em que a alma deixa de ser um
"objeto" da mente e passa a ser o guia da vida. O homem não a
controla; ele a segue.
3. A Fusão em Abu Simbel: O Centro (Self)
A imagem da pedra e do raio que se fundem em
um "instante que não é cronologia" descreve o encontro com o Self
(o Centro).
Ø A Pedra: O corpo, o inconsciente, a matéria densa e milenar.
Ø O Raio: A consciência, o espírito, a faísca divina.
Nesse encontro, a "máscara do
trono" (a Persona social) cai por terra. O que sobra é o
"pertencer-se no aberto" — uma liberdade absoluta onde não há mais o
peso dos títulos ou das expectativas sociais, apenas a verdade do ser.
4. O Sagrado no Altar de Silêncio
O poema termina com uma reverência ao Sagrado
Feminino não como uma deusa externa, mas como um "templo de
carne". Isso simboliza a integração total: o sagrado não está mais no céu
distante, mas na presença humana, no corpo e no amor vivido.
O tempo "se demora" porque, quando
os opostos se reconciliam, o conflito que gera o desgaste do tempo cessa. A luz
não brilha mais sobre o mundo para consumi-lo, mas brilha através
do amor para iluminar o caminho da eternidade.
Síntese do Simbolismo
|
Elemento do Poema |
Significado Psicológico Profundo |
|
Sol que consome |
Intelecto isolado e ego inflado. |
|
Horizonte como morada |
A consciência encontrando limites e paz. |
|
A Clareira |
O espaço psíquico livre de julgamentos e controle. |
|
Memória das Pedras |
O inconsciente coletivo que preserva a verdade eterna. |
|
Altar de Silêncio |
O estado de plenitude onde o diálogo interno cessa. |
5. A busca entre a ação e a contemplação
Essa busca pelo equilíbrio entre a ação (o
Sol que tudo desvela) e a contemplação (o Altar de silêncio) é, em última
análise, a busca pela harmonia entre o fazer e o ser. No poema, esse equilíbrio
não é uma divisão de 50% para cada lado, mas uma relação de fundamentação.
Aqui está como essa dinâmica se revela:
5.1. A Ação que nasce da Contemplação
O "Sol que tudo consome" é a ação
pura, o esforço sem propósito, a vontade que esgota a si mesma. Quando Melquisedec
diz que ela é o "apelo que desperta o fogo", ele inverte a lógica
comum: a ação (o fogo) não deve vir da obrigação ou do comando, mas de um lugar
de escuta interna.
Na vida prática: Isso sugere que a sua
"ação" no mundo só é verdadeiramente poderosa quando ela é uma
resposta a um momento de silêncio contemplativo. Sem Nefertari (a
contemplação), o Sol apenas queima; com ela, o Sol ilumina.
5.2. O Templo de Carne: Onde os Opostos
se Tocam
Muitas vezes, tentamos separar o
"espiritual/contemplativo" do "material/ativo". O poema
rompe essa barreira ao falar do "templo de carne".
O equilíbrio aqui é a percepção de que o
sagrado não está fora da rotina ou acima do corpo, mas encarnado nele. A
contemplação não é fugir do mundo, mas encontrar o "instante em que a
pedra e o raio se fundem" no meio da própria vida.
5.3. O Recuo do Ego para a Manifestação
do Ser
O trecho "até o que é divino se cala em
reverência" descreve o ponto máximo do equilíbrio:
A Ação (o divino, o herói, o mestre)
reconhece que existe uma sabedoria na Contemplação (o silêncio, a espera, o
acolhimento) diante da qual ele deve silenciar.
Esse "calar-se" não é fraqueza; é a
força necessária para que o amor (a luz) se faça. O equilíbrio acontece quando
você para de tentar "ordenar o brilho" e permite que ele aconteça
naturalmente.
5.4. A Prática do "Pertencer-se no
Aberto"
Viver no "aberto" significa agir
sem a necessidade de "mando" ou "posse". É a capacidade de
realizar grandes feitos no mundo (o Sol de Abu Simbel) mantendo o coração em
estado de repouso (o Altar).
Uma reflexão para o seu caminho, querido
leitor(a):
Se Nefertari é a "origem que o destina
ao caminho", talvez o seu equilíbrio não esteja em tentar equilibrar
pratos opostos, mas em garantir que cada ação sua tenha passado, primeiro, pelo
"Altar de silêncio".
Você sente que, no seu cotidiano, o
"Sol" tem consumido demais o horizonte, ou você já consegue
identificar esses momentos em que a pedra e o raio se fundem em um só instante
de presença?
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