Sessenta Plus – O caminho do NOLT

Por Hiran de Melo

Envelhecer não é apenas atravessar uma fronteira silenciosa. É entrar em um novo território da existência, onde o tempo não deve ser visto como perda, mas como possibilidade. Contudo, é preciso cuidado: o discurso da “nova tendência do envelhecer” não pode se transformar em uma ideologia que culpabiliza o idoso por não corresponder a um ideal de vitalidade e produtividade.

O olhar do outro

Durante a vida ativa, o indivíduo é reconhecido por sua produção e utilidade. Com a aposentadoria, esse reconhecimento muda. O idoso passa a ser visto como alguém que demanda atenção e cuidado. O olhar do outro, antes marcado pela admiração, pode se transformar em tolerância ou obrigação. Esse deslocamento não é apenas social, mas existencial: o ser sente que seu lugar no mundo se estreita.

O peso de si mesmo

Há ainda o peso íntimo: o de ser fardo para si próprio. O corpo já não responde como antes, a memória falha, e o tempo livre pode se tornar vazio. Mas aqui é necessário um alerta: não podemos aceitar que esse peso seja interpretado como fracasso individual. A sociedade, ao desresponsabilizar-se, tende a transformar o envelhecimento em problema privado, como se fosse apenas uma questão de esforço ou mérito pessoal.

A possibilidade de leveza

A leveza surge quando o idoso reencontra o sentido da própria presença, não na utilidade, mas na autenticidade. Participar de comunidades abre espaço para pertencimento e reconhecimento mútuo. Porém, essa possibilidade não deve ser romantizada: ela depende de condições sociais concretas — políticas públicas, acesso à saúde, espaços de convivência — e não apenas da disposição subjetiva de cada indivíduo.

O conceito de NOLT – A nova tendência do envelhecer

Nos últimos anos, a expressão NOLT (New Older Living Trend) tem ganhado força. O NOLT recusa os rótulos tradicionais do envelhecimento e defende o direito de continuar ativo e protagonista da própria vida. Mas é preciso cuidado: não queremos com o conceito do 60+NOLT justificar privilégios e hierarquias, culpabilizando o sujeito pelos seus fracassos. A exemplo do que se faz com o conceito de mérito para justificar a péssima distribuição de riqueza e a perpetuação da miséria.

O risco é transformar o NOLT em uma narrativa que só serve aos idosos que já possuem capital cultural, econômico e social para permanecer ativos. Se isso acontecer, o conceito deixa de ser emancipador e passa a reforçar desigualdades, invisibilizando aqueles que envelhecem em condições precárias.

O reencontro com o ser

Não ser peso é assumir a própria existência como possibilidade. Mas essa possibilidade não pode ser confundida com obrigação. O NOLT só terá sentido se for vivido como abertura coletiva, e não como exigência individual. O valor do ser não está em corresponder às expectativas de produtividade, mas em habitar o tempo com autenticidade, dignidade e reconhecimento social.

Assim, o NOLT precisa ser compreendido como crítica às estruturas que marginalizam o envelhecimento. Ele não deve servir para reforçar o mito da meritocracia, mas para ampliar a reflexão: envelhecer pode ser potência, desde que a sociedade assuma sua responsabilidade em garantir condições reais de pertencimento, cuidado e criação.

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