Soerguendo Templos
Por Hiran de Melo
Houve
um idoso maçom que foi lançado ao mundo do silêncio — não aquele silêncio
fecundo que prepara a palavra, mas o outro, pesado, onde as paredes são feitas
de espera e os rostos se assemelham a sementes que não encontraram terra. Ali,
a existência parecia suspensa entre o esquecimento e a desistência. Ele chegou
trazendo apenas uma pequena bolsa: não continha pertences, mas vestígios —
fragmentos de uma vida que outros, apressadamente, haviam decretado encerrada.
Naquele
lugar, o tempo não fluía; ele se acumulava. Não havia futuro, apenas a
repetição de um presente gasto. As almas, cansadas de si mesmas, encolhiam-se
em problemas mínimos, contando os minutos como quem conta moedas, sem perceber
que já não buscavam comprar nada — apenas sobreviver ao vazio. A Luz do
Oriente, outrora guia, havia sido substituída por certezas endurecidas, como
estátuas erguidas para não pensar.
Muitos
ali habitavam a inautenticidade da sombra. Esperavam — sempre esperavam. Por
alguém que viesse, por algo que mudasse, por um sentido que lhes fosse entregue
pronto, como se o existir pudesse ser recebido e não construído. Esqueceram-se
de que a pedra não se lapida sozinha, e que o destino não é morada herdada, mas
espaço conquistado.
Mas
aquele Irmão, ao sentir o vento frio tocar-lhe o rosto, compreendeu algo que
não se ensina — apenas se desperta: existir não é suportar o tempo até o fim,
mas cultivá-lo como obra. Não pediu licença para permanecer, nem autorização
para recomeçar. Pediu apenas um malho e um cinzel — não para destruir as pedras
que o cercavam, mas para nelas semear sentido.
O
Canteiro da Iniciação Perene
Ao
tomar em suas mãos os instrumentos, ele não trabalhava apenas a matéria —
trabalhava o invisível. Cada golpe era um gesto contra o esquecimento. Cada
lasca retirada era uma recusa silenciosa à insignificância. Ele abriu, no meio
da aridez, uma clareira onde ainda fosse possível respirar sentido.
Com
o tempo, compreendeu que a Loja não é o teto que nos abriga, mas o cuidado que
ofertamos ao mundo. Não é o ritual que nos transforma, mas a consciência com
que o habitamos. E dizia, com a serenidade de quem já atravessou a pressa:
“Se
nada temos a esperar, então aprendamos a esperar o amanhecer — pois até o sol,
ao nascer, parece recomeçar de si mesmo.”
Aos
poucos, o espaço mudou. Não por milagre, mas por presença. Onde havia
desistência, começou a surgir atenção. Onde havia silêncio vazio, instaurou-se
o silêncio que escuta. E foi nesse terreno, antes árido, que ele promoveu uma
iniciação mais profunda — não aos graus, mas ao próprio ser:
–
Iniciações não voltadas apenas aos que chegam, mas sobretudo aos que, tendo
chegado longe, esqueceram-se de continuar. Pois há um perigo silencioso em todo
caminho: acreditar-se concluído.
–
Celebrações dos mistérios que não se perdem na repetição, mas se renovam na
consciência. Ele lembrava que o símbolo não vive no gesto, mas no olhar que o
reconhece.
A
Grandeza do Ofício
Convocou
os antigos — não os velhos de idade, mas os que carregavam histórias não
contadas. Pediu-lhes que falassem, não para ensinar, mas para não morrerem
antes do tempo dentro de si mesmos. Pois há silêncios que amadurecem, e há
outros que apodrecem.
Mostrou-lhes
que a coragem não está em negar a finitude, mas em agir apesar dela. Que a
morte não é apenas um evento futuro, mas uma presença que nos convida, todos os
dias, a viver com mais verdade. E que o amor — esse tão invocado e pouco
compreendido — não é dever, nem ornamento moral, mas a forma mais plena de
habitar o instante.
E
assim, ao se aproximar do Oriente Eterno, não havia nele vestígio de derrota.
Sua partida não foi uma interrupção, mas continuidade em outra linguagem. Em
sua última prancha de arquitetura, deixou gravado não um ensinamento, mas um
testemunho:
A
felicidade não é uma fase — é um exercício.
A
Arte Real não se aposenta — apenas muda de plano.
E
o sentido da vida não reside na juventude que passa, mas na capacidade de,
mesmo no inverno, ainda regar o jardim do outro.
Partiu
serenamente. Não para o vazio, mas para um espaço onde o habitar continua —
talvez mais sutil, talvez mais vasto. E deixou, como herança silenciosa, uma
verdade que não se impõe, mas se reconhece:
Basta um lugar.
Basta um gesto.
Basta um pouco de cuidado.
E aquilo que era desgraça
pode tornar-se canto.
E aquilo que era solidão pode, enfim, tornar-se morada.
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