Com quem compartilhar o
caminho
Por Hiran de Melo
Antes
de entregar seu coração a alguém, escute o silêncio da sua alma: essa presença lhe devolve o fôlego ou, aos poucos, a
ensina a conviver com a dor?
Toda
caminhada ao lado de alguém conhece dias de vento. Nenhum encontro humano
atravessa o tempo sem desencontros, silêncios ou pequenas tempestades. O amor
não nos livra da condição de sermos imperfeitos. Mas existe uma diferença
silenciosa entre enfrentar a chuva juntos e descobrir, tarde demais, que ela
fez morada dentro de nós.
Há
presenças que devolvem o ar aos nossos pulmões. Ao lado delas, as dores não
desaparecem, apenas deixam de ser o centro da vida. O coração volta a repousar,
o horizonte se alarga e a esperança encontra, outra vez, uma fresta por onde
entrar. São pessoas que não exigem que diminuamos a nossa luz para permanecer.
Outros
encontros, entretanto, nos esvaziam sem fazer ruído. Não porque exista maldade
em cada gesto, mas porque há corações que carregam feridas tão antigas que já
não conseguem tocar sem transmitir um pouco da própria dor. Amam como podem. E,
sem perceber, transformam o abraço em espinho.
Lembro-me,
então, de uma antiga fábula sobre uma borboleta e um escorpião. Talvez nunca
tenha acontecido. Talvez aconteça todas as manhãs, escondida entre as escolhas
que fazemos. As boas histórias sobrevivem porque não falam apenas de seus
personagens; falam de nós.
Existem
afetos que desejam cuidar, mas trazem consigo um ferrão invisível. Não ferem
por falta de amor. Ferem porque ainda não encontraram um caminho para
cicatrizar aquilo que carregam dentro de si.
A
borboleta parte. Não por ausência de afeto, mas porque algumas asas compreendem
que permanecer também pode ser uma forma de cair. Há voos que não nascem da
coragem de partir, mas da necessidade de continuar vivos.
Por
isso, certas despedidas não carregam ressentimento. Carregam gratidão pelo que
foi possível viver e respeito pelo que já não pode florescer. Algumas
distâncias são, na verdade, uma delicada maneira de preservar o que ainda resta
de amor.
O
amor nunca pediu que alguém se tornasse altar para a dor do outro. Amar é
cuidar. Mas também é guardar a pequena chama que Deus acendeu dentro de nós,
para que ela não se apague tentando aquecer um inverno que não nos pertence.
As
relações mais bonitas lembram árvores antigas. Sob sua sombra descansamos. Em
seus galhos aprendemos que crescer não exige abandonar quem somos. Outras se
parecem com trepadeiras silenciosas. Chegam adornando os muros da alma e,
quando percebemos, já disputam a luz necessária para que as flores continuem
existindo.
Talvez
amadurecer seja reconhecer que nem toda companhia foi feita para alcançar
conosco o fim da estrada. Algumas pessoas caminham ao nosso lado para nos
lembrar da beleza da vida. Outras, para nos ensinar, com ternura e dor, o valor
de seguir adiante.
No
fim, o amor verdadeiro nunca nos pede que apaguemos a própria luz para iluminar
alguém. Ele caminha ao nosso lado como a manhã depois de uma longa noite: não
elimina todas as sombras, mas torna possível continuar o caminho sem medo
delas.
Assista:
https://www.instagram.com/reel/DZVvSoUxPaZ/?igsh=Z2N2amQ3cXNhOGxq
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