Quando a Criança Sorri para o Adulto O existir autêntico Por Hiran de Melo Poucas conquistas humanas possuem a grandeza silenciosa de poder olhar para trás e perceber que a criança que um dia fomos não nos perguntaria por que mudamos. Antes, sorriria. Reconheceria em nossos olhos a mesma centelha que um dia habitou os seus, agora amadurecida pelas travessias da vida. Talvez essa seja uma das formas mais profundas de felicidade: não a ausência das dores, mas a reconciliação com a própria história. Vivemos longo tempo tentando existir conforme o desenho que os outros fazem de nós. Desde cedo aprendemos a caber: caber nas expectativas da família, nas exigências da sociedade, nas imagens produzidas pelo sucesso, na aprovação dos afetos. Pouco a pouco, a existência transforma-se numa delicada arte de adaptação. E quase sem perceber, deixamos de perguntar quem somos para perguntar apenas quem esperam que sejamos. Nasce, então, o ser dividido. Metade de si permanece escondida. O...