Postagens

Mostrando postagens de junho, 2026
Imagem
Quando a Criança Sorri para o Adulto O existir autêntico Por Hiran de Melo Poucas conquistas humanas possuem a grandeza silenciosa de poder olhar para trás e perceber que a criança que um dia fomos não nos perguntaria por que mudamos. Antes, sorriria. Reconheceria em nossos olhos a mesma centelha que um dia habitou os seus, agora amadurecida pelas travessias da vida. Talvez essa seja uma das formas mais profundas de felicidade: não a ausência das dores, mas a reconciliação com a própria história. Vivemos longo tempo tentando existir conforme o desenho que os outros fazem de nós. Desde cedo aprendemos a caber: caber nas expectativas da família, nas exigências da sociedade, nas imagens produzidas pelo sucesso, na aprovação dos afetos. Pouco a pouco, a existência transforma-se numa delicada arte de adaptação. E quase sem perceber, deixamos de perguntar quem somos para perguntar apenas quem esperam que sejamos. Nasce, então, o ser dividido. Metade de si permanece escondida. O...
Imagem
O Despertar que Nem Sempre Chega Por Hiran de Melo “Caminhos… Quanto tempo caminhei. Na inocência, no sonhar. E assim vivenciei. Um dormir. Bem devagar. E a vida breve. Indo. No sonhar. Segue destino. De uma vida. A buscar”..  Observação: Dedico esse poema a todos e todas aqueles que vivem boa parte de suas vidas vivendo sobre um dormir que só o tempo desperta para acordar ou nem o tempo acorda essa consciência para vida. Eita mundooo. Cecília Nóbrega Existem pessoas que caminham durante toda a vida sem jamais perceberem que caminham. Confundem movimento com direção, rotina com destino, sobrevivência com existência. Os dias sucedem os dias como páginas que o vento vira sozinho, enquanto a alma permanece sentada à beira da estrada, aguardando um encontro que talvez nunca aconteça. O belo poema de Cecília Nóbrega nos conduz a essa inquietação silenciosa. " Quanto tempo caminhei. Na inocência, no sonhar ." Poucas palavras bastam para revelar uma verdade que atravessa gerações. A...
Imagem
  Quando se Aproxima a Hora da Partida Por Hiran de Melo Há um instante silencioso em toda existência no qual a alma começa a arrumar as malas antes mesmo que o corpo perceba a viagem. Nada acontece de forma abrupta. Primeiro, aquilo que durante décadas nos incendiava deixa de produzir calor. Os lugares permanecem os mesmos, as pessoas continuam falando conosco, as tarefas repetem seu antigo ritual; entretanto, algo profundamente invisível já começou a partir. É a alma. Ela sempre viaja antes. Talvez por isso viver nunca tenha sido simplesmente permanecer. Viver é consentir que a existência nos desinstale continuamente. Somos peregrinos muito antes de sermos moradores. A casa onde imaginamos habitar definitivamente nunca passou de uma hospedaria construída entre duas eternidades. No entanto, insistimos em fincar raízes onde Deus plantou apenas sementes. Gostamos da firmeza do chão porque ele nos oferece a ilusão do controle. Enquanto caminhamos sobre a terra acred...
Imagem
O sentido que escapa quando se fixa o olhar na dor Por Hiran de Melo Há dores que insistem em permanecer não porque sejam incuráveis, mas porque nos acostumamos a habitá-las. Tornam-se morada da memória, altar da saudade e, por vezes, o único lugar onde acreditamos encontrar respostas para aquilo que jamais compreendemos. O ser humano possui uma estranha inclinação para revisitar suas ruínas. Caminha entre os escombros da própria história como um arqueólogo que, escavando o passado, espera encontrar um artefato capaz de justificar todas as perdas. Retorna às mesmas lembranças, recompõe os mesmos diálogos, revive os mesmos silêncios. Imagina que, olhando com suficiente atenção para a dor, descobrirá nela um sentido oculto que nunca percebeu. Mas a dor nem sempre guarda uma mensagem. Essa talvez seja uma das verdades mais difíceis de aceitar. Nem toda partida possui uma explicação satisfatória. Nem toda injustiça encerra uma lição evidente. Nem toda ausência foi planejada par...
Imagem
  Com quem compartilhar o caminho Por Hiran de Melo Antes de entregar seu coração a alguém, escute o silêncio da sua alma: essa presença lhe devolve o fôlego ou, aos poucos, a ensina a conviver com a dor? Toda caminhada ao lado de alguém conhece dias de vento. Nenhum encontro humano atravessa o tempo sem desencontros, silêncios ou pequenas tempestades. O amor não nos livra da condição de sermos imperfeitos. Mas existe uma diferença silenciosa entre enfrentar a chuva juntos e descobrir, tarde demais, que ela fez morada dentro de nós. Há presenças que devolvem o ar aos nossos pulmões. Ao lado delas, as dores não desaparecem, apenas deixam de ser o centro da vida. O coração volta a repousar, o horizonte se alarga e a esperança encontra, outra vez, uma fresta por onde entrar. São pessoas que não exigem que diminuamos a nossa luz para permanecer. Outros encontros, entretanto, nos esvaziam sem fazer ruído. Não porque exista maldade em cada gesto, mas porque há corações que carregam ferid...
Imagem
Novas Formas de Relacionamentos Amorosos O que muda e o que permanece Por Hiran de Melo Há uma pergunta que atravessa todas as épocas da humanidade: O amor mudou? À primeira vista, a resposta parece evidente. Basta olhar ao redor. Os relacionamentos que marcaram a vida de nossos avós já não ocupam o mesmo lugar no imaginário contemporâneo. O namoro tradicional divide espaço com relacionamentos abertos, poliamor, ficantes fixos, amizades coloridas, trisais e uma infinidade de novas nomenclaturas afetivas. Os aplicativos de relacionamento transformaram o encontro humano numa experiência que cabe na palma da mão. Em poucos minutos é possível conhecer alguém, apaixonar-se, decepcionar-se e partir para a próxima tentativa. Nunca houve tantas possibilidades. E, paradoxalmente, nunca houve tanta dificuldade em permanecer. O sociólogo Zygmunt Bauman chamaria esse fenômeno de amor líquido. Vivemos em uma época na qual os vínculos tendem a assumir a forma da água: adaptam-se ...