Novas Formas de Relacionamentos Amorosos

O que muda e o que permanece

Por Hiran de Melo

Há uma pergunta que atravessa todas as épocas da humanidade:

O amor mudou?

À primeira vista, a resposta parece evidente. Basta olhar ao redor. Os relacionamentos que marcaram a vida de nossos avós já não ocupam o mesmo lugar no imaginário contemporâneo. O namoro tradicional divide espaço com relacionamentos abertos, poliamor, ficantes fixos, amizades coloridas, trisais e uma infinidade de novas nomenclaturas afetivas.

Os aplicativos de relacionamento transformaram o encontro humano numa experiência que cabe na palma da mão. Em poucos minutos é possível conhecer alguém, apaixonar-se, decepcionar-se e partir para a próxima tentativa.

Nunca houve tantas possibilidades.

E, paradoxalmente, nunca houve tanta dificuldade em permanecer.

O sociólogo Zygmunt Bauman chamaria esse fenômeno de amor líquido.

Vivemos em uma época na qual os vínculos tendem a assumir a forma da água: adaptam-se rapidamente aos recipientes, mas também escapam com facilidade entre os dedos.

O compromisso passou a ser visto, muitas vezes, como uma ameaça à liberdade individual.

Deseja-se a proximidade sem a dependência.

A intimidade sem a vulnerabilidade.

A conexão sem o risco da perda.

É a busca por relacionamentos que possam ser desligados com a mesma facilidade com que são iniciados.

Mas será que isso é realmente novo?

Talvez não.

O que mudou não foi a natureza humana.

Mudaram os cenários onde ela se manifesta.

Mudaram os instrumentos.

Mudaram os nomes.

Mudaram os formatos.

Mas o coração continua enfrentando os mesmos dilemas que enfrentava há milênios.

A psicanálise oferece uma pista importante para compreender esse paradoxo.

Segundo Jacques Lacan, o ser humano é marcado por uma falta fundamental. Existe em nós uma incompletude que jamais desaparece completamente. É essa ausência que impulsiona o desejo, a criação, os sonhos e também o amor.

Amamos porque algo nos falta.

Buscamos porque algo nos escapa.

Desejamos porque somos incompletos.

Por essa razão, nenhuma forma de relacionamento consegue eliminar definitivamente a angústia, o ciúme, a insegurança ou o medo da rejeição.

O namoro tradicional não eliminava essas dores.

O casamento não eliminava essas dores.

O relacionamento aberto não elimina essas dores.

O poliamor não elimina essas dores.

O trisal não elimina essas dores.

A estrutura muda.

A condição humana permanece.

Existe uma ilusão recorrente em cada geração: acreditar que encontrou uma nova fórmula capaz de resolver os antigos conflitos do amor.

Mas o amor sempre resiste às fórmulas.

O relacionamento aberto amplia a liberdade, mas continua exigindo confiança.

O poliamor multiplica os afetos, mas não elimina a necessidade de reconhecimento.

O trisal desafia a lógica da exclusividade, mas continua exigindo diálogo, maturidade emocional e responsabilidade.

Da mesma forma, o casamento tradicional pode oferecer estabilidade sem garantir felicidade.

Nenhuma configuração possui poderes mágicos.

Nenhuma estrutura é capaz de abolir a condição humana.

O sujeito continua desejando ser amado.

Continua desejando ser escolhido.

Continua desejando ocupar um lugar especial no coração de alguém.

A tecnologia acelerou os encontros.

Mas não acelerou a maturidade emocional.

Os aplicativos encurtaram distâncias geográficas.

Mas não encurtaram as distâncias psíquicas.

Hoje encontramos pessoas com enorme facilidade.

O difícil continua sendo encontrar a si mesmo.

Por trás da multiplicação dos formatos afetivos existe uma realidade permanente: ninguém consegue viver apenas de autonomia.

Por mais independente que seja, o ser humano continua necessitando de pertencimento.

Continua necessitando de acolhimento.

Continua necessitando de intimidade.

Continua necessitando daquela rara experiência de poder baixar as próprias defesas diante de alguém.

Talvez seja justamente aí que se encontra a verdadeira questão do nosso tempo.

O problema não é se o relacionamento é monogâmico ou não.

Não é se envolve duas pessoas ou três.

Não é se nasceu em um aplicativo ou em um encontro casual.

A pergunta fundamental continua sendo outra:

Existe respeito?

Existe honestidade?

Existe consentimento?

Existe responsabilidade afetiva?

Existe cuidado com a dignidade do outro?

Porque é nesse ponto que todas as formas de relacionamento se encontram.

A qualidade ética de uma relação vale mais do que seu rótulo.

Uma relação tradicional pode ser profundamente abusiva.

Uma relação não convencional pode ser profundamente saudável.

E o inverso também é verdadeiro.

O amor não se mede pela arquitetura da relação.

Mede-se pela forma como as pessoas habitam essa arquitetura.

Talvez seja por isso que, apesar de todas as transformações culturais, algumas coisas permaneçam intactas.

Continuamos sonhando.

Continuamos nos decepcionando.

Continuamos idealizando.

Continuamos aprendendo.

Continuamos buscando alguém que nos compreenda.

Continuamos tentando encontrar sentido na aventura de compartilhar a vida.

Mudam os aplicativos.

Mudam os contratos.

Mudam os nomes.

Mudam as configurações.

Mas permanece aquilo que sempre esteve no centro da experiência humana.

O desejo de amar.

O desejo de ser amado.

E a difícil tarefa de transformar esse desejo em um vínculo capaz de sobreviver ao tempo, às diferenças e às inevitáveis imperfeições da realidade.

Porque, no final das contas, toda forma de amor enfrenta o mesmo desafio:

Sair da fantasia e entrar na verdade.

E é justamente nessa travessia que o amor deixa de ser apenas um sentimento e se transforma numa construção humana.

Saiba Mais, assista:

https://www.instagram.com/reel/DZgEVV0g1pB/?igsh=OHQwOG5sNzd5M3Fz


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