Quando se Aproxima a Hora da Partida

Por Hiran de Melo

Há um instante silencioso em toda existência no qual a alma começa a arrumar as malas antes mesmo que o corpo perceba a viagem.

Nada acontece de forma abrupta.

Primeiro, aquilo que durante décadas nos incendiava deixa de produzir calor. Os lugares permanecem os mesmos, as pessoas continuam falando conosco, as tarefas repetem seu antigo ritual; entretanto, algo profundamente invisível já começou a partir.

É a alma.

Ela sempre viaja antes.

Talvez por isso viver nunca tenha sido simplesmente permanecer. Viver é consentir que a existência nos desinstale continuamente. Somos peregrinos muito antes de sermos moradores. A casa onde imaginamos habitar definitivamente nunca passou de uma hospedaria construída entre duas eternidades.

No entanto, insistimos em fincar raízes onde Deus plantou apenas sementes.

Gostamos da firmeza do chão porque ele nos oferece a ilusão do controle. Enquanto caminhamos sobre a terra acreditamos dominar o percurso. Sabemos onde colocar os pés, conhecemos as curvas da estrada, antecipamos os obstáculos.

Mas chega um momento em que a vida nos convida a outro tipo de travessia.

Já não basta caminhar.

É preciso navegar.

Depois, voar.

E tanto o mar quanto o céu possuem uma pedagogia semelhante: nenhum deles oferece o conforto do chão.

A água ensina a confiar.

O vento ensina a entregar-se.

Talvez seja exatamente por isso que as maiores transformações aconteçam quando perdemos a sensação de estabilidade. A alma só aprende a voar quando descobre que o abismo não é apenas um lugar de queda. Também pode tornar-se um espaço onde Deus sustenta aquilo que já não consegue sustentar-se sozinho.

O maior inimigo da transcendência raramente recebe o nome de medo.

Chamamos de prudência.

De maturidade.

De responsabilidade.

Mas, muitas vezes, trata-se apenas de uma acomodação elegantemente disfarçada.

Existe uma lentidão da alma que nada tem a ver com serenidade.

É a lentidão produzida pelo excesso de segurança.

Ela não paralisa.

Apenas adia.

E aquilo que é constantemente adiado termina pertencendo ao passado antes mesmo de ter existido.

A vida possui o delicado pudor das grandes oportunidades.

Ela não insiste.

Passa.

É semelhante ao convite silencioso para uma dança.

Quem permanece excessivamente ocupado calculando os riscos perde a música.

Quando finalmente decide levantar-se, o salão já mudou de ritmo.

Não porque a vida tenha sido cruel.

Mas porque a eternidade jamais aprendeu a esperar.

Durante anos imaginamos que viver consiste em acumular dias produtivos.

Trabalhamos como se estivéssemos construindo permanências.

Entretanto, toda profissão é apenas uma estação.

Todo cargo é provisório.

Todo reconhecimento possui prazo de validade.

Chega uma manhã em que percebemos que o trabalho continua precisando de nós muito menos do que nós imaginávamos precisar dele.

Não é uma derrota.

É uma revelação.

A identidade nunca habitou aquilo que fazíamos.

Sempre habitou aquele que permanecia trabalhando silenciosamente dentro de nós.

A verdadeira aposentadoria não acontece quando deixamos uma função.

Acontece quando deixamos de acreditar que somos apenas ela.

Ainda assim, existe um equívoco perigoso.

Confundir descanso com imobilidade.

Até mesmo os rios que parecem imóveis continuam correndo.

Até mesmo as estrelas aparentemente fixas atravessam o universo.

Toda criação permanece em movimento porque o próprio amor é movimento.

O corpo talvez desacelere.

Mas a consciência continua caminhando.

A oração continua respirando.

A compaixão continua florescendo.

Enquanto houver um único amanhecer, ainda existe uma travessia possível.

Talvez não pelos caminhos do mundo.

Mas pelos corredores da própria alma.

Há, contudo, uma partida infinitamente mais difícil.

É aquela que acontece sem mudança de endereço.

Continuamos próximos.

Mas deixamos de habitar o mesmo tempo interior.

Há pessoas que permanecem conosco apenas na geografia.

Já não vivem na mesma frequência do coração.

O diálogo transforma-se em formalidade.

O abraço perde a memória.

A presença torna-se ausência educada.

Insistimos em permanecer porque confundimos amor com permanência.

Mas o amor não aprisiona ninguém.

Nem a si mesmo.

Chega um momento em que continuar esperando pelo afeto que o outro já não consegue oferecer torna-se uma forma silenciosa de abandonar a própria dignidade.

Despedir-se não significa deixar de amar.

Significa devolver ao outro o direito de seguir seu caminho e conceder a nós mesmos a graça de continuar existindo.

Toda despedida verdadeira é também um nascimento.

Morre a expectativa.

Nasce a liberdade.

Talvez seja exatamente isso que chamamos de maturidade espiritual.

Não possuir.

Abençoar.

Quando a hora da partida finalmente se aproxima — seja da profissão, de um amor, de um sonho antigo ou da própria existência — percebemos que Deus jamais nos pediu para permanecer em lugar algum.

Pediu apenas que caminhássemos.

A vida nunca foi um monumento.

Sempre foi peregrinação.

Os antigos iniciados compreendiam isso.

Toda iniciação começava com um desprendimento.

Antes de receber uma nova veste, era preciso retirar a antiga.

Antes da luz, o despojamento.

Antes do reencontro, o vazio.

Porque ninguém atravessa uma porta carregando toda a mobília da casa anterior.

Talvez seja essa a razão de envelhecermos.

Não para acumular anos.

Mas para aprender a soltar.

No fim, descobrimos que partir não é desaparecer.

É tornar-se leve o suficiente para atravessar portas que sempre estiveram abertas.

E talvez a morte — essa palavra diante da qual todos silenciam — seja apenas a última metáfora daquilo que passamos a vida inteira aprendendo.

Deixar.

Confiar.

Seguir.

Porque, antes mesmo que a cortina se feche, a música já começou em outro salão.

E aqueles que aprenderam a dançar durante a travessia reconhecem imediatamente o compasso.

Nunca estiveram indo embora.

Estavam, desde o primeiro passo, voltando para casa.


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