O Despertar que Nem Sempre Chega

Por Hiran de Melo

“Caminhos… Quanto tempo caminhei. Na inocência, no sonhar. E assim vivenciei. Um dormir. Bem devagar. E a vida breve. Indo. No sonhar. Segue destino. De uma vida. A buscar”..  Observação: Dedico esse poema a todos e todas aqueles que vivem boa parte de suas vidas vivendo sobre um dormir que só o tempo desperta para acordar ou nem o tempo acorda essa consciência para vida. Eita mundooo. Cecília Nóbrega

Existem pessoas que caminham durante toda a vida sem jamais perceberem que caminham. Confundem movimento com direção, rotina com destino, sobrevivência com existência. Os dias sucedem os dias como páginas que o vento vira sozinho, enquanto a alma permanece sentada à beira da estrada, aguardando um encontro que talvez nunca aconteça.

O belo poema de Cecília Nóbrega nos conduz a essa inquietação silenciosa. "Quanto tempo caminhei. Na inocência, no sonhar." Poucas palavras bastam para revelar uma verdade que atravessa gerações. A inocência não pertence apenas à infância. Existe uma inocência mais profunda e mais perigosa: aquela que nos impede de enxergar quem realmente somos. Não porque nos falte inteligência, mas porque nos acostumamos a viver sem perguntar pelo sentido da própria caminhada.

Cada ser humano nasce caminhante. Desde o primeiro choro, inicia-se uma travessia cujo mapa jamais nos é entregue. Seguimos aprendendo nomes, profissões, crenças, costumes, acumulando respostas antes mesmo de formular as perguntas essenciais. Aos poucos, o caminho deixa de ser descoberta para transformar-se em repetição.

É então que o poema introduz uma imagem delicada e perturbadora: "E assim vivenciei. Um dormir. Bem devagar."

Esse dormir não pertence ao corpo. Os olhos permanecem abertos, as mãos trabalham, os compromissos são cumpridos, as fotografias registram sorrisos. Contudo, algo permanece adormecido no interior. Vive-se sem realmente habitar a própria existência.

Talvez esse seja o maior paradoxo do nosso tempo. Nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão distantes de nós mesmos. Corremos para todos os lados, mas raramente paramos para perguntar quem é esse "eu" que corre. A velocidade tornou-se uma forma sofisticada de evitar o silêncio, porque no silêncio surgem perguntas que nenhum calendário consegue responder.

O adormecimento da consciência não acontece de repente. Ele chega discretamente. Instala-se quando aceitamos viver apenas para cumprir expectativas. Quando substituímos escolhas por hábitos. Quando preferimos a segurança das respostas prontas ao risco das perguntas verdadeiras.

Pouco a pouco, deixamos de existir por dentro.

A vida, entretanto, possui uma estranha sabedoria. Ela insiste em nos despertar.

Às vezes, utiliza a dor.

Outras vezes, a perda.

Em certas ocasiões, basta um sorriso inesperado, um entardecer silencioso, uma criança fazendo uma pergunta impossível ou um poema encontrado por acaso. Pequenos acontecimentos possuem o poder de romper o sono de muitos anos.

Porque despertar não significa descobrir todas as respostas. Significa perceber que estávamos dormindo.

O tempo participa desse processo como um mestre discreto. Ele amadurece os frutos e também as consciências. Contudo, o tempo, sozinho, não realiza milagres. Existem pessoas que envelhecem sem despertar. Apenas acumulam aniversários. Os cabelos embranquecem, mas o olhar continua preso às mesmas ilusões de décadas atrás.

A idade mede o tempo vivido.

A consciência mede a vida realmente experimentada.

Talvez por isso o poema afirme que "a vida breve" segue seu destino. A brevidade não deveria produzir medo, mas lucidez. Quando compreendemos que nossos dias são limitados, cada amanhecer deixa de ser rotina para tornar-se oportunidade.

O instante adquire espessura.

As palavras passam a merecer cuidado.

Os encontros deixam de ser casuais.

O abraço deixa de ser protocolo.

A existência ganha peso justamente porque é passageira.

O destino, então, revela outra face. Não é uma estrada previamente desenhada por alguma força invisível. O destino nasce das pequenas escolhas que fazemos quando estamos despertos. Cada gesto modifica a direção da caminhada. Cada decisão redesenha o mapa da própria alma.

Somos artesãos do caminho enquanto caminhamos.

Por isso, buscar não é sinal de fracasso. É sinal de vida.

Somente quem permanece vivo por dentro continua procurando. A busca não revela uma ausência; revela uma esperança. O ser humano cresce menos pelas certezas que acumula do que pelas perguntas que se recusa a abandonar.

Existe uma beleza silenciosa em reconhecer que nunca chegaremos completamente. A caminhada não termina quando encontramos todas as respostas, mas quando deixamos de desejar compreender. Enquanto existir espanto, haverá movimento. Enquanto existir sede de sentido, haverá vida.

Talvez seja essa a maior delicadeza escondida na dedicatória de Cecília Nóbrega. Ela não fala apenas daqueles que dormem. Ela lança um chamado aos que ainda podem acordar.

Porque sempre existe um instante em que a consciência bate à porta.

Alguns fingem não ouvir.

Outros respondem que estão ocupados.

Poucos têm coragem de abrir.

E, quando a porta finalmente se abre, descobre-se que o despertar nunca foi uma chegada a outro lugar. Era um retorno. O caminho que parecia conduzir para fora conduzia, desde o princípio, para dentro.

Talvez a verdadeira travessia humana não consista em percorrer grandes distâncias, mas em reduzir, pouco a pouco, a distância entre aquilo que aparentamos ser e aquilo que realmente somos.

Quando essa aproximação acontece, o caminhar deixa de ser apenas sucessão de passos. Torna-se presença.

O sonho deixa de ser fuga. Torna-se horizonte.

O tempo deixa de ser inimigo. Torna-se mestre.

E a vida, ainda breve, finalmente desperta para si mesma.

 

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