O Encantamento e o
Desvelamento
A Jornada do Amor Além do
Mito
Por Hiran de Melo
Há
uma verdade silenciosa escondida por trás de quase toda história de amor:
ninguém se apaixona inicialmente por uma pessoa. Apaixona-se por uma imagem.
A
afirmação pode parecer dura, mas talvez seja uma das mais importantes para
compreendermos a aventura humana dos afetos.
Quando
a solidão aperta, quando a carência se instala e o coração passa a sentir o
peso da ausência, o olhar deixa de ser apenas um instrumento de observação. Ele
se transforma em um projetor. Passamos a lançar sobre o outro nossos desejos,
nossas faltas, nossos sonhos e nossas expectativas.
É
nesse momento que ocorre o encantamento.
O
homem que ansiava por uma princesa encontra uma mulher comum e, sem perceber, a
reveste com as vestes da realeza de seus sonhos. A mulher que buscava um
príncipe encontra um homem igualmente comum e o investe com os atributos da
perfeição que habita sua imaginação.
Não
é exatamente mentira.
Mas
também não é verdade.
É
uma espécie de poesia produzida pela necessidade.
O
amor nascente possui algo da arte: ele colore aquilo que toca.
A
carência, nesse sentido, funciona como uma lente mágica. Ela não cria o outro,
mas modifica a maneira como o vemos. O sapo torna-se príncipe. A sapa
converte-se em princesa. O ordinário ganha a aparência do extraordinário.
E
assim começa a maioria das histórias.
O Casamento das Fantasias
Quando
dois enamorados chegam ao altar, algo curioso acontece.
Não
são apenas duas pessoas que se encontram diante do sagrado.
São
também duas fantasias.
Duas
idealizações.
Dois
universos imaginários cuidadosamente construídos ao longo do namoro.
Vestidos
de branco, envolvidos por símbolos de pureza e eternidade, eles prometem aquilo
que, naquele momento, acreditam sinceramente poder cumprir: amar para sempre,
desejar para sempre, encantar-se para sempre.
O
problema não está na sinceridade da promessa.
O
problema está na natureza daquilo que está sendo prometido.
Pois
a paixão é um estado emocional.
E
estados emocionais não obedecem a juramentos.
Eles
obedecem ao tempo.
O
altar celebra uma promessa eterna feita por sentimentos que são, por definição,
transitórios.
Mas
talvez essa seja exatamente a beleza e o risco do casamento: apostar na
permanência quando tudo ao redor aponta para a mudança.
O Tempo: O Grande Desencantador
Nenhum
inimigo do amor é tão eficiente quanto a rotina.
Não
porque a rotina destrua os afetos.
Mas
porque ela destrói as ilusões.
O
cotidiano é um revelador de verdades.
Ele
mostra o humor matinal que o namoro escondia.
Mostra
as fragilidades emocionais.
Mostra
as inseguranças.
Mostra
os defeitos.
Mostra
as feridas.
Mostra
a humanidade.
Aos
poucos, o encanto começa a perder força.
A
princesa revela suas limitações.
O
príncipe revela suas imperfeições.
E
aquilo que antes parecia majestoso passa a parecer comum.
É
nesse instante que muitos acreditam que o amor acabou.
Mas
talvez o que tenha acabado seja apenas o encantamento.
Há
uma diferença profunda entre essas duas coisas.
O
encantamento é a experiência de amar uma imagem.
O
amor é a capacidade de permanecer diante da realidade.
O
encantamento nasce da projeção.
O
amor nasce do encontro.
O
encantamento deseja um ideal.
O
amor acolhe uma pessoa.
A Queda Necessária
Sob
a perspectiva psicanalítica, especialmente na tradição inaugurada por Jacques
Lacan, esse processo possui uma dimensão ainda mais profunda.
Desejamos
aquilo que imaginamos faltar em nós.
O
outro surge como portador daquilo que acreditamos necessitar para sermos
completos.
Entretanto,
a completude é uma ilusão.
Nenhum
ser humano possui o poder de preencher definitivamente a falta fundamental que
habita outro ser humano.
Mais
cedo ou mais tarde, a realidade se impõe.
O
parceiro deixa de ocupar o lugar de salvador.
A
companheira deixa de ocupar o lugar de redenção.
E
então ocorre aquilo que podemos chamar de desvelamento.
A
máscara cai.
Mas
não a máscara do outro.
A
nossa.
Descobrimos
que não amávamos apenas quem estava diante de nós.
Amávamos
também aquilo que imaginávamos encontrar nele.
O
desencantamento, portanto, não revela apenas quem o outro é.
Revela
quem nós somos.
O Momento da Verdade
É
nesse ponto que a relação chega à sua prova decisiva.
A
pergunta já não é:
"Você é o príncipe que eu
imaginei?"
Nem:
"Você é a princesa que eu
sonhei?"
A
pergunta passa a ser outra:
"Sabendo quem você realmente é, ainda desejo caminhar ao
seu lado?"
Aqui
nasce o amor adulto.
Não
o amor dos contos de fada.
Não
o amor das canções românticas.
Não
o amor da idealização.
Mas
o amor da escolha.
A
escolha consciente de permanecer.
A
escolha consciente de acolher.
A
escolha consciente de compreender que o outro não é perfeito porque nunca foi
feito para ser perfeito.
Se
essa resposta for afirmativa, algo extraordinário acontece.
O
juramento simbólico do altar deixa de ser uma ficção poética.
Transforma-se
numa realidade concreta.
A
promessa finalmente encontra seu fundamento.
Não
na paixão.
Mas
na decisão.
Não
na fantasia.
Mas
na verdade.
Além do Mito
Muitos
relacionamentos terminam exatamente nesse ponto.
Quando
o encanto desaparece, concluem que o amor desapareceu.
E
partem em busca de um novo príncipe.
De
uma nova princesa.
De
um novo encantamento.
Recomeçam
o ciclo.
Novas
promessas.
Novas
projeções.
Novas
fantasias.
Novos
desencantamentos.
Mas
alguns aprendem algo precioso.
Aprendem
que a finalidade do amor não é encontrar alguém perfeito.
É
aprender a amar alguém real.
E
isso muda tudo.
Porque
pessoas reais envelhecem.
Erram.
Fracassam.
Têm
dias ruins.
Possuem
sombras.
Carregam
cicatrizes.
Mas
também possuem virtudes que nenhuma fantasia é capaz de produzir: lealdade,
cumplicidade, presença, amizade e cuidado.
Essas
qualidades não pertencem ao reino dos contos de fada.
Pertencem
ao reino da existência.
A Beleza dos Humanos
Talvez
o maior amadurecimento afetivo seja compreender que o objetivo da vida não é
viver eternamente encantado.
É
viver verdadeiramente conectado.
O
encantamento é belo.
Mas
é passageiro.
O
amor é menos espetacular.
Porém
mais profundo.
Menos
luminoso.
Porém
mais duradouro.
Menos
mágico.
Porém
mais humano.
No
fim das contas, a felicidade talvez não consista em encontrar um príncipe ou
uma princesa.
Consista
em descobrir que os sapos e as sapas nunca foram o problema.
O
problema era exigir deles aquilo que apenas os personagens dos mitos poderiam
oferecer.
Quando
abandonamos essa exigência impossível, algo novo nasce.
Não
um conto de fadas.
Mas
algo muito mais raro.
Dois
seres humanos imperfeitos, conscientes de suas limitações, caminhando juntos
pela estrada da existência.
Nem
um à frente.
Nem
um atrás.
Mas
lado a lado.
E
talvez seja exatamente aí, quando o encanto termina e a verdade começa, que o
amor finalmente encontra sua forma mais elevada.
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