Promessas e Desencantamento

O Preço da Palavra e a Coragem de Perder as Ilusões

Por Hiran de Melo

Há duas experiências que acompanham todo ser humano do nascimento à morte: fazer promessas e sofrer desencantamentos.

Prometemos quando amamos, quando sonhamos, quando iniciamos projetos, quando acreditamos que o futuro poderá nos devolver aquilo que sentimos faltar no presente. E nos desencantamos quando descobrimos que o objeto desejado não era exatamente aquilo que imaginávamos, que as pessoas não correspondem às imagens que construímos delas, ou que a própria vida se recusa a obedecer aos roteiros que cuidadosamente escrevemos.

A maturidade talvez comece exatamente nesse ponto: quando compreendemos que promessas e desencantamentos não são opostos. São partes inseparáveis da mesma travessia.

A criança vive cercada de encantamentos. Ela acredita que o mundo existe para satisfazer seus desejos. O brinquedo parece perfeito. O amor dos pais parece absoluto. O futuro parece ilimitado. Tudo ainda está envolvido pela névoa dourada das idealizações.

Mas chega um momento em que a bola de ouro cai no poço.

Ela sempre cai.

Cada pessoa possui sua própria bola de ouro. Para alguns, é o sonho de um amor perfeito. Para outros, a busca por reconhecimento, sucesso, riqueza ou prestígio. Há também aqueles que depositam suas expectativas em instituições, religiões, ideologias ou líderes.

Contudo, a realidade possui uma estranha vocação para interromper os encantamentos.

Aquilo que parecia completo revela suas fissuras.

Aquilo que parecia eterno mostra sua fragilidade.

Aquilo que parecia capaz de preencher o vazio demonstra ser apenas mais um objeto entre tantos.

É nesse instante que surge a primeira grande lição da existência: não desejamos as coisas porque elas são perfeitas; desejamos porque nos falta algo.

O desejo nasce da ausência.

Por isso, nenhuma conquista consegue encerrá-lo definitivamente.

A ilusão humana consiste em acreditar que existe algum objeto, alguma pessoa ou alguma circunstância capaz de eliminar para sempre a experiência da falta. Mas toda vez que pensamos ter encontrado essa solução definitiva, o desencantamento reaparece para nos lembrar da verdade.

Não existe completude.

Existe caminhada.

E é justamente aí que entra o valor das promessas.

Vivemos numa época que desconfia profundamente delas. A palavra empenhada parece ter perdido seu peso. Tudo deve ser provisório, reversível e descartável. Relacionamentos, compromissos, convicções e até identidades são frequentemente tratados como produtos de consumo.

Mas uma promessa verdadeira não é uma garantia de felicidade.

É uma decisão de permanecer fiel a algo mesmo quando o encantamento inicial desaparece.

Prometer significa aceitar que haverá dias de entusiasmo e dias de desencanto.

Significa compreender que a beleza de um compromisso não está na intensidade da emoção que o originou, mas na fidelidade que o sustenta ao longo do tempo.

A palavra dada nos arranca da tirania dos impulsos momentâneos.

Ela nos torna responsáveis.

Por isso as grandes tradições humanas sempre atribuíram um caráter quase sagrado à promessa. Não porque os homens sejam perfeitos, mas porque são imperfeitos. Não porque sejam constantes, mas porque são instáveis.

A promessa funciona como uma ponte construída sobre o rio turbulento dos sentimentos.

Sem ela, a vida torna-se uma sucessão de desejos passageiros.

Entretanto, toda promessa autêntica conduz inevitavelmente ao desencantamento.

Não porque esteja errada.

Mas porque a realidade sempre destrói as fantasias que projetamos sobre aquilo que amamos.

O casamento desencanta.

A amizade desencanta.

A vocação desencanta.

A fé desencanta.

Não porque deixem de possuir valor, mas porque deixam de ser idealizações.

E essa é uma das descobertas mais difíceis da existência: amar algo de verdade só é possível depois que o encantamento termina.

Enquanto amamos uma fantasia, não amamos a realidade.

Amamos uma projeção de nós mesmos.

O desencantamento é doloroso porque desmonta imagens. Mas é também libertador porque nos aproxima da verdade.

O amor maduro nasce quando o príncipe deixa de ser príncipe.

Quando o herói deixa de ser herói.

Quando o mestre deixa de ser infalível.

Quando percebemos que as pessoas reais são infinitamente mais complexas do que os personagens que criamos dentro da nossa imaginação.

A vida adulta começa quando abandonamos a esperança de encontrar seres perfeitos e aprendemos a construir relações verdadeiras com seres humanos imperfeitos.

Talvez seja por isso que tantas pessoas resistam ao desencantamento.

Preferem viver protegidas por ilusões.

Preferem conservar a fantasia intacta.

Preferem acreditar que existe, em algum lugar, uma promessa capaz de eliminar todas as faltas e resolver todas as angústias.

Mas a realidade continua batendo à porta.

E ela possui a mesma função que tinha nos antigos contos de fadas: despertar.

Despertar da fantasia.

Despertar do narcisismo.

Despertar da crença infantil de que a vida nos deve felicidade permanente.

O desencantamento não é o fracasso do sonho.

É o nascimento da lucidez.

É o momento em que compreendemos que o sentido da vida não está em recuperar uma bola de ouro perdida, mas em aprender a caminhar mesmo sabendo que nenhuma bola de ouro será suficiente.

As grandes promessas não existem para nos proteger da realidade.

Existem para nos ensinar a atravessá-la.

E talvez a verdadeira sabedoria consista exatamente nisso: conservar a capacidade de sonhar sem se tornar escravo das próprias ilusões; honrar a palavra dada sem exigir recompensas mágicas; e aceitar que toda jornada humana é feita de promessas que nos impulsionam e de desencantamentos que nos amadurecem.

Porque, no fim, não são os encantamentos que nos transformam.

São os desencantamentos que sobrevivemos.

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