A Brasa que Não se Vê
Da Vida Recebida à
Existência que se Torna Fogo
Por Hiran de Melo, Henrique Matheus
Conde de Melo e Josivan Campos Brasil
Há
uma diferença silenciosa entre viver e existir.
Quase
ninguém percebe. Confundimos ambas porque acontecem simultaneamente, mas
pertencem a ordens distintas da realidade.
A
vida nos é dada.
A
existência é aquilo que fazemos com o dom recebido.
A
vida não nos perguntou se desejávamos nascer. Simplesmente aconteceu. Veio como
chegam as chuvas sobre a terra, como germinam as sementes escondidas no escuro,
como respiram as árvores que permaneceram ao nosso lado desde a infância sem
jamais exigir reconhecimento.
Ela
é um presente.
A
existência, porém, é uma resposta.
É
nela que levantamos casas, acumulamos projetos, enfrentamos contas, construímos
carreiras, organizamos agendas e imaginamos futuros. Existir é erguer paredes;
viver é ainda encontrar tempo para contemplar a flor que nasceu junto ao
alicerce.
Talvez
seja esta a tragédia mais discreta da modernidade: tornamo-nos
excelentes administradores da existência e péssimos guardiões da vida.
Há
quem construa um império e já não perceba que a planta do quintal pede água.
Há
quem planeje décadas e já não encontre alguns minutos para ouvir quem
permaneceu ao seu lado durante toda a caminhada.
A
vida sempre fala.
O
problema é que ela raramente grita.
Ela
sussurra.
E,
quando deixa de ser ouvida, encontra outras linguagens.
Às
vezes, faz uma árvore secar.
Às
vezes, deixa uma planta "chorar".
Não
porque a planta possua voz, mas porque nossa consciência finalmente aprendeu a
escutar.
Não
foi a planta que pediu socorro.
Foi
a própria vida.
Foi
ela quem nos puxou pela manga para lembrar que aquilo que realmente sustenta a
existência jamais aparece nas planilhas, nos cronogramas ou nos projetos
arquitetônicos.
Enquanto
isso, outra dimensão da existência continua nos visitando: a memória do amor.
Perguntaram-me,
certa vez, se eu voltaria para o maior amor da minha vida.
Respondi
que não.
Mas
acrescentei algo que talvez seja mais verdadeiro:
Eu
daria tudo para sentir novamente por alguém aquilo que um dia fui capaz de
sentir.
Não
era apenas amor.
Era
um estado de combustão.
Era
a febre alta da alma.
Era
atravessar um incêndio sabendo que o fogo queimava e, ainda assim, retirar com
as próprias mãos a placa que advertia sobre o perigo.
Existem
sentimentos que não apenas passam por nós.
Eles
nos recriam.
Por
isso, quando terminam, não perdemos apenas uma pessoa.
Perdemos
também uma versão de nós mesmos.
A
versão que acreditava que amar sem reservas ainda era possível.
A
versão que não calculava perdas.
A
versão que oferecia tudo sem perguntar quanto receberia de volta.
E
talvez seja essa a saudade mais profunda.
Não
a saudade de alguém.
Mas
a saudade de quem fomos.
Porque
a ausência de uma pessoa, com o tempo, aprende a dividir espaço com a rotina.
Já
a ausência daquela intensidade permanece como um eco permanente daquilo que um
dia descobrimos ser capazes de viver.
Desde
então, toda nova experiência é comparada com aquela antiga chama.
Não
porque desejemos voltar.
Mas
porque agora sabemos o tamanho do fogo que um coração humano consegue suportar.
É
curioso perceber que a própria natureza já conhecia esse segredo muito antes de
nós.
Nas
antigas roças havia pequenas pedras negras espalhadas pelo chão.
Frias.
Opacas.
Quase
insignificantes.
Entretanto,
bastava aproximá-las do fogo para revelar uma propriedade extraordinária.
Não
se consumiam rapidamente.
Não
explodiam.
Não
se desfaziam.
Concentravam
calor.
Guardavam
energia.
Transformavam-se
numa brasa silenciosa.
Talvez
seja daí que nasceram, muito tempo depois, os modernos carvões de acendimento
rápido.
As
inovações humanas frequentemente são apenas redescobertas da inteligência
escondida na natureza.
A
pedra já sabia aquilo que a técnica apenas reaprendeu.
Também
nós somos assim.
Enquanto
permanecemos longe do fogo da vida, parecemos frios.
Imóveis.
Pesados.
Mas
o fogo verdadeiro não nos destrói.
Ele
revela aquilo que sempre esteve escondido.
Há
pessoas que confundem frieza com ausência de sentimentos.
Enganam-se.
O
carvão também parece frio.
Até
que encontra o fogo.
Depois
disso, já não exibe grandes chamas.
Conserva
uma força invisível.
É
justamente essa ausência de espetáculo que lhe permite manter o calor por mais
tempo.
Talvez
o coração humano amadureça da mesma maneira.
Na
juventude, deseja incendiar o mundo.
Na
maturidade, aprende a tornar-se brasa.
A
chama impressiona.
A
brasa transforma.
Ela
cozinha o alimento.
Forja
o ferro.
Aquece
a noite.
Permanece
quando o clarão já desapareceu.
Talvez
a verdadeira sabedoria não esteja em voltar aos grandes incêndios emocionais da
juventude, nem em congelar o coração como um iceberg para jamais sofrer
novamente.
O
desafio seja outro.
Aprender
a conservar o fogo.
Ser
como aquela pedra antiga que repousava esquecida entre os caminhos da roça:
aparentemente comum, mas capaz de concentrar uma potência extraordinária quando
encontrada pela chama.
É
isso que a vida espera de nós.
Não
que deixemos de construir casas.
Mas
que não esqueçamos de regar as plantas.
Não
que deixemos de sonhar.
Mas
que continuemos capazes de ouvir os pequenos chamados do cotidiano.
Não
que deixemos de amar.
Mas
que descubramos uma forma de transformar o incêndio da paixão na brasa serena
da permanência.
Porque
viver é receber a chama.
Existir
é decidir o que faremos com ela.
E,
no fim, talvez não sejamos lembrados pelas paredes que levantamos, nem pelas
obras que concluímos.
Seremos
lembrados pelo calor que conseguimos conservar.
Pois
a maior obra da existência nunca foi construir um mundo.
Sempre
foi impedir que a vida deixasse de arder dentro de nós.
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