O Jardim de Todos Nós


A Verdadeira Jornada na Maçonaria

O Valor do Caminhar

Por Hiran de Melo

Eu já vivi uma época na Maçonaria em que era muito comum ouvir dizer: "Precisamos iniciar novos membros, senão a loja fecha." O argumento sempre girava em torno daqueles que faziam a passagem para o Oriente Eterno, dos que se mudavam de cidade ou dos que envelheciam e perdiam a vontade de frequentar os trabalhos. Era uma conta de matemática: contar os que saem, correr atrás de novos que entre, fechar com um saldo positivo no fim do ano.

No entanto, hoje percebo que a verdadeira questão nunca esteve na conta. Estava, o tempo todo, em outro lugar — um lugar que a pressa de preencher cadeiras vazias não deixa ver.

O erro do funil

Ir atrás de profanos para trazê-los ao sagrado apenas para oferecer graus, títulos, diplomas, paramentos ou palavras e sinais secretos não basta. Uma loja pode ser eficiente como um funil — captar, iniciar, elevar, exaltar — e ainda assim estar vazia por dentro. Pode cumprir cada rito com precisão e não formar um único cidadão mais feliz.

Ou será que isso realmente satisfaz? É isso que torna alguém um cidadão melhor e uma pessoa mais feliz? Um diploma emoldurado explica um grau. Não explica um homem.

A chave nunca esteve em abrir mais portas para fora. Está em acolher bem quem já está na Ordem. O essencial é sentir-se bem por ir à loja e fazer parte de uma comunidade maçônica — não por obrigação de presença, não por medo de ficar mal visto, mas porque ali, naquele salão, alguma coisa em nós respira melhor. O papel dos dirigentes deve ser, justamente, propiciar um ambiente que transforme essa frequência em algo agradável, gratificante e relevante. Quando isso acontece, cria-se naturalmente uma energia e uma dinâmica atraentes. Em vez de batermos à porta de futuros candidatos, são eles que virão bater à nossa, buscando ingresso e querendo saber o que é preciso para fazer parte de um grupo de maçons felizes, de cidadãos ordeiros e exemplares.

Talvez a loja que mais cresce não seja a que mais recruta. Seja, simplesmente, a que ninguém quer deixar.

O deserto e o oásis

Essa reflexão nos leva a uma ponderação fundamental sobre como encaramos a nossa trajetória. Muitas vezes, ao partir para uma viagem, ficamos presos à ideia de que a felicidade e o contentamento só serão alcançados ao atingir a meta, no final da estrada. Isso é um grande equívoco. Devemos buscar a realização no próprio caminho, no ato de caminhar e na jornada em si, e não apenas no destino final.

Se para encontrar um oásis for preciso atravessar o deserto sem aproveitar o que essa travessia pode oferecer de bom, o esforço acumulado será tão exaustivo que o oásis dificilmente compensará todo o desgaste e as idealizações criadas.

Quem não aprecia o caminho logo se cansa do calor. Logo se cansa do frio. Logo deseja voltar para casa. E acaba desistindo — iniciando jornadas que nunca conclui.

É a mesma travessia, sempre. Muda apenas o nome do deserto: às vezes é uma reunião cansativa, às vezes um ritual repetido sem alma, às vezes o silêncio de um irmão que deixou de ser procurado. E o oásis também muda de nome — grau, cargo, reconhecimento — mas continua sendo apenas um ponto no mapa, incapaz de justificar sozinho toda a sede acumulada no percurso.

O templo não é o fim da estrada

Por tudo isso, o caminho precisa ser abençoado e sagrado. O sagrado não está apenas no momento em que se pisa no templo maçônico, mas também em todo o percurso que nos leva até ele — a ligação que se faz antes da reunião, o convite que se envia a quem faltou, a mesa que se compartilha depois dos trabalhos, o telefonema que pergunta apenas "como você está".

Um irmão pode atravessar a cidade inteira, no trânsito, no cansaço do fim de tarde, apenas para sentar-se numa coluna por duas horas. Se esse trajeto for vivido só como obstáculo a ser vencido, nada do que acontecer dentro do templo será capaz de compensá-lo. Mas se cada etapa dessa travessia for tratada como parte do rito — e não como seu preço de entrada — então o templo deixa de ser destino e passa a ser apenas o lugar onde a jornada, por um instante, se detém para respirar.

A jornada deve ser apreciada e desejada em cada etapa. Se olharmos para o caminho apenas como um obstáculo, nada do que encontrarmos no templo será capaz de nos realizar ou compensar o sofrimento do percurso.

Duas lojas, um só caminho

Existem, afinal, duas maneiras de entender uma loja. A primeira mede sua força pelo número de portas que consegue abrir para fora. A segunda mede sua força pela qualidade do que se vive lá dentro, entre as colunas.

À primeira vista, parecem inimigas — uma olha para o crescimento, a outra para o cuidado; uma para o futuro, a outra para o presente. Mas talvez não sejam duas lojas, e sim duas fases de uma só. Porque não existe atração verdadeira que não nasça primeiro de um bem-estar real. Ninguém bate à porta de uma casa que, por dentro, definha. E nenhuma casa que floresce por dentro consegue, por muito tempo, permanecer invisível por fora.

Cuidar de quem já caminha ao nosso lado não é o contrário de crescer. É a única forma de crescer que não se esgota — porque não depende de ir buscar quem falta, e sim de honrar quem já está.

O caminhar como destino

No fim, talvez a Maçonaria não seja um lugar a que se chega, mas um passo que se repete — sessão após sessão, ano após ano — até que o próprio caminhar se torne, ele mesmo, a resposta que se buscava lá na frente.

Não há oásis que valha a sede de quem odiou o deserto. Mas também não há deserto que resista a quem aprendeu a amar a travessia. O templo continuará ali, ao fundo do caminho, esperando. A pergunta é: chegaremos vivos até ele, ou apenas cansados?


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