As Plantas
que Nos Ensinam a Eternidade
Entre a
Vida que Recebemos e a Existência que Construímos
Por Hiran
de Melo
Há
revelações que não descem dos céus em forma de trovão. Elas brotam do chão.
Não
chegam envoltas pela solenidade dos grandes acontecimentos, mas escondem-se na
simplicidade de um jardim esquecido, de uma folha que amarela, de uma planta
que espera silenciosamente por um pouco de água. A natureza nunca teve
necessidade de levantar a voz para ensinar. Desde o princípio, sua pedagogia
sempre foi o silêncio.
Talvez
por isso as plantas consigam tocar lugares da alma onde os discursos não
conseguem entrar.
Elas
permanecem. Esperam. Confiam.
E,
justamente por dependerem inteiramente do cuidado de alguém, acabam revelando o
quanto nós também dependemos de algo que está muito além de nossa
autossuficiência.
Vivemos
convencidos de que somos senhores da existência. Aprendemos a dominar máquinas,
construir cidades, modificar paisagens, produzir tecnologias capazes de
diminuir distâncias e ampliar horizontes. Mas há uma pergunta que permanece
irredutível diante de toda grandeza humana:
Quem nos ensinou a fazer uma semente florescer?
Podemos
irrigar a terra.
Podemos
preparar o solo.
Podemos
proteger o broto.
Mas
jamais seremos autores da vida que desperta no interior daquela pequena
semente.
Existe
uma fronteira invisível onde termina o poder humano e começa o mistério.
É
exatamente nessa fronteira que nasce a reverência.
Nossa
época, entretanto, sofre de uma enfermidade silenciosa: confundimos crescimento
com grandeza.
Queremos
ampliar a casa, mas esquecemos de cuidar do lar.
Queremos
multiplicar os bens, mas empobrecemos os vínculos.
Queremos
conquistar o mundo inteiro, enquanto abandonamos os pequenos jardins onde
aprendemos, um dia, o significado do afeto.
Corremos
tanto em direção ao futuro que deixamos o presente morrer de sede.
Foi
exatamente isso que aquelas plantas revelaram.
Elas
não estavam apenas necessitando de água.
Elas
estavam oferecendo uma pergunta.
Onde estava aquele homem que, um dia, aprendeu a conversar com
as árvores?
As
lágrimas que surgiram não nasceram da culpa.
Nasceram
do reencontro.
Porque
existem choros que não denunciam derrota; anunciam retorno.
Há
lágrimas que lavam os olhos para que a alma volte a enxergar.
Foi
isso que aconteceu.
Naquele
instante, não eram apenas plantas sendo regadas.
Era
uma consciência despertando para aquilo que nunca deveria ter deixado de
existir.
Foi
então que uma distinção se tornou inevitável.
A
existência não é a vida.
A
existência é a obra.
A
vida é o dom.
A
existência pertence ao campo das possibilidades. É o território onde exercemos
nossa liberdade, onde escolhemos caminhos, edificamos projetos, escrevemos
nossa história. Ela pode ser bela ou miserável, profunda ou superficial.
Depende, em grande parte, da maneira como decidimos habitá-la.
A
vida, porém, pertence a outra ordem.
Ela
nunca foi conquista.
Sempre
foi presente.
Antes
que pronunciássemos qualquer palavra, a vida já pulsava.
Antes
que elaborássemos qualquer projeto, ela já nos havia escolhido.
Antes
que tivéssemos consciência de nós mesmos, alguém já nos sustentava no mistério
da existência.
A
vida não é uma propriedade.
É
uma confiança depositada em nossas mãos.
Por
isso toda vida pede cuidado.
Quem
compreende essa verdade jamais trata uma árvore como simples objeto, um animal
como coisa descartável ou um ser humano como instrumento.
Quem
reverencia a vida aprende que tudo aquilo que vive carrega uma centelha da
eternidade.
Talvez
seja por isso que Deus tenha escolhido um jardim para iniciar a história da
humanidade.
E
outro jardim para anunciar a Ressurreição.
Não
é coincidência.
Na
linguagem bíblica, o jardim nunca representa apenas um espaço geográfico.
Representa
uma maneira de existir.
É
o lugar onde a criação e o Criador ainda conseguem conversar sem ruídos.
Cada
vez que abandonamos nossos jardins interiores, afastamo-nos um pouco dessa
conversa primordial.
Cada
vez que voltamos a cuidar da vida, ainda que seja de uma simples planta
esquecida na varanda, algo em nós retorna para casa.
Porque
a casa nunca foi feita apenas de paredes.
A
verdadeira casa é o lugar onde a vida encontra abrigo.
Foi
então que compreendi outra verdade.
Há
pessoas que são como essas plantas.
Vivem
oferecendo sombra.
Distribuem
beleza.
Produzem
frutos.
Purificam
o ambiente ao redor.
E
fazem tudo isso sem exigir reconhecimento.
São
presenças que Deus espalha pelo mundo para impedir que a humanidade esqueça
completamente a ternura.
Entretanto,
até essas pessoas, algumas vezes, adoecem.
Passam
a acreditar que sua presença já não faz diferença.
Imaginam
que poderiam retirar-se da convivência humana sem que o mundo perdesse alguma
coisa.
É
um engano profundamente doloroso.
Quem
recebeu o dom de irradiar esperança não possui o direito de escondê-la.
Não
por vaidade.
Mas
por responsabilidade.
A
luz nunca é proprietária de si mesma.
Ela
pertence aos caminhos que ilumina.
Há
existências que se tornam sacramentos da esperança.
Sua
simples presença já consola.
Sua
escuta já cura.
Seu
abraço já reorganiza o caos interior de alguém.
São
pessoas que talvez jamais conheçam a extensão do bem que realizam.
Assim
também acontece com as árvores.
Elas
jamais verão todos aqueles que descansarão sob sua sombra.
E,
ainda assim, continuam crescendo.
Essa
talvez seja uma das formas mais elevadas do amor.
Servir
sem contabilizar.
Doar
sem possuir.
Permanecer
sem dominar.
Cristo
viveu exatamente assim.
Nunca
fez da própria vida uma propriedade privada.
Transformou-a
integralmente em oferta.
Por
isso ensinou que ninguém possui autoridade para retirar de si mesmo o tempo que
recebeu do Pai.
O
tempo não nos pertence.
Pertencemos
ao tempo que Deus nos confiou.
Nossa
missão não consiste em torná-lo mais longo.
Consiste
em torná-lo mais pleno.
A
eternidade não começa depois da morte.
Ela
começa sempre que um instante é vivido em sua plenitude de amor.
Há
minutos que atravessam séculos.
Há
encontros que sobrevivem aos calendários.
Há
abraços que permanecem respirando quando os corpos já não podem mais se tocar.
Foi
isso que dois homens descobriram ao chorarem abraçados.
Descobriram
que a maturidade não endurece.
Amadurecer
é tornar-se permeável.
O
fruto maduro nunca é o mais duro.
É
justamente o mais macio.
Também
a alma.
Quanto
mais amadurece, mais sensível se torna.
A
sociedade ainda educa muitos homens para esconderem as lágrimas como se elas
fossem sinal de derrota.
O
Evangelho, porém, apresenta outro caminho.
O
Cristo chorou.
Pedro
chorou.
João
reclinou a cabeça sobre o peito do Mestre.
A
fortaleza cristã nunca foi ausência de sensibilidade.
Foi
coragem para amar até o fim.
A
arrogância constrói fortalezas.
A
ternura constrói moradas.
A
soberba ergue monumentos.
A
humildade cultiva jardins.
Talvez
por isso o Reino de Deus seja tão frequentemente comparado a uma semente.
O
Reino nunca chega fazendo barulho.
Chega
germinando.
Silenciosamente.
Por
dentro.
E
assim também acontece conosco.
Quando
voltamos a regar uma planta esquecida, dificilmente imaginamos que estamos
irrigando algo muito maior do que um vaso.
Estamos
devolvendo água às raízes da própria humanidade.
Porque
toda civilização começa a morrer quando perde a capacidade de cuidar daquilo
que não lhe pode retribuir.
Uma
planta não agradece.
Uma
criança pequena não retribui.
Um
idoso fragilizado não recompensa.
A
criação inteira permanece silenciosa.
E
exatamente nesse silêncio Deus continua perguntando à humanidade aquilo que
perguntou desde o princípio:
"Onde está teu irmão?"
Hoje
talvez essa pergunta possa ser ampliada.
Onde
está teu jardim?
Onde
está tua árvore?
Onde
está tua nascente?
Onde
está aquela parte de ti que ainda sabia ajoelhar-se diante do mistério da vida?
Enquanto
não respondermos a essas perguntas, continuaremos construindo arranha-céus
sobre corações desertificados.
Mas,
no dia em que voltarmos a olhar para o chão com a mesma admiração com que
olhamos para o céu, compreenderemos que Deus nunca deixou de falar conosco.
Nós
apenas havíamos desaprendido a escutar a linguagem das raízes.
E
então descobriremos, finalmente, que não fomos nós que salvamos as plantas.
Foram
elas que, silenciosamente, salvaram em nós aquilo que corria o risco de morrer:
a capacidade de reverenciar a vida como a mais sagrada de todas as dádivas.
Porque
existir é uma possibilidade.
Mas
viver...
Viver
é aceitar, todos os dias, que somos jardineiros de um jardim que jamais nos
pertenceu, embora nos tenha sido confiado pelo Eterno para que, através de
nossas mãos, o mundo continuasse florescendo.
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