O
Confidente dos Solitários
Por Hiran de Melo
Antes
de toda grande conversa, existe um grande silêncio. E talvez seja justamente
por isso que os solitários sempre tenham escolhido a natureza como
interlocutora. Uns conversam com o mar. Outros com as estrelas. No sertão,
conversa-se com o sabiá.
Há
dores que não procuram resposta. Procuram apenas um ouvido.
Nem
sempre encontramos esse ouvido entre as pessoas. Há sofrimentos que parecem
grandes demais para caber na pressa do mundo. Então aprendemos um antigo
segredo da humanidade: quando os homens não escutam, a natureza escuta.
É
por isso que o sabiá ocupa um lugar tão profundo na alma brasileira.
Na
canção de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, ele não é apenas um pássaro. É aquele que
atravessa distâncias impossíveis. Voa sobre rios, serras e cidades sem pedir
passaporte. Conhece caminhos que nenhum homem conhece. Carrega notícias
invisíveis. Torna-se o confidente daqueles que já não sabem a quem confiar o
próprio coração.
"Tu
que andas pelo mundo..."
Não
é um pedido dirigido apenas ao pássaro.
É
uma oração.
Talvez
toda oração seja isso: falar com alguém que pode alcançar lugares onde nós não
conseguimos chegar.
O
ser humano possui uma necessidade quase biológica de contar sua dor. Não porque
a narrativa elimine o sofrimento, mas porque transforma o caos em significado.
Enquanto a dor permanece muda, ela nos aprisiona. Quando encontra linguagem,
começa lentamente a nos reorganizar por dentro.
Por
isso os antigos inventaram os deuses, os santos, os oráculos, os rios sagrados
e as árvores milenares. Não eram apenas objetos de culto. Eram depositários das
angústias humanas.
O
sabiá pertence a essa linhagem.
Ele
representa a possibilidade de que o universo ainda esteja disposto a ouvir.
Existe
uma delicadeza extraordinária no verso:
"Tem
pena d'eu..."
Não
há revolta.
Não
há acusação.
Há
apenas vulnerabilidade.
Vivemos
numa época em que todos aprendemos a parecer fortes. Construímos perfis,
opiniões, certezas e personagens. Mas quase ninguém aprendeu novamente a pedir
colo.
A
canção faz exatamente isso.
Ela
devolve dignidade ao ato de confessar a própria falta.
O
"coração vazio" de que fala Gonzaga não é apenas uma saudade amorosa.
É uma experiência que acompanha toda existência humana.
Cada
pessoa carrega dentro de si um espaço que ninguém consegue preencher
completamente.
Alguns
tentam ocupá-lo com dinheiro.
Outros
com poder.
Outros
com trabalho.
Outros
com religião.
Outros
com distrações intermináveis.
Mas
o vazio continua ali, lembrando silenciosamente que fomos feitos não apenas
para possuir, mas para pertencer.
O
amor de que fala a música pode ser uma pessoa.
Pode
ser a infância.
Pode
ser a terra natal.
Pode
ser Deus.
Pode
ser a própria versão de nós mesmos que ficou perdida em alguma curva da vida.
Talvez
por isso a pergunta permaneça aberta:
"Onde
anda o meu amor?"
É
uma pergunta que atravessa os séculos.
Onde
foi parar aquilo que dava sentido aos meus dias?
Em
muitos momentos da vida, não somos diferentes daquele retirante que pergunta ao
sabiá se viu passar alguém muito querido.
Na
verdade, perguntamos isso ao tempo.
Perguntamos
à memória.
Perguntamos
às fotografias.
Perguntamos
às canções.
Perguntamos
às noites insones.
Perguntamos
ao silêncio.
E
o silêncio, curiosamente, responde.
Não
com palavras.
Mas
com presença.
Há
uma sabedoria escondida nisso.
Os
grandes confidentes quase nunca oferecem soluções.
Eles
apenas permanecem.
O
sabiá não promete encontrar o amor perdido.
Ele
apenas aceita carregar a pergunta.
E
isso já basta.
Talvez
seja exatamente isso que torna algumas pessoas inesquecíveis.
Não
são aquelas que resolveram nossos problemas.
São
aquelas diante das quais pudemos deixar cair a armadura.
Há
seres humanos que se tornam sabiás na vida dos outros.
Escutam
sem interromper.
Permanecem
sem julgar.
Abraçam
sem exigir explicações.
Guardam
confidências como quem guarda sementes.
Não
aceleram o tempo da cicatrização.
Sabem
que certas dores precisam apenas de companhia.
Vivemos
cercados por especialistas em falar.
Mas
o mundo continua desesperadamente carente de ouvintes.
Talvez
porque escutar seja uma forma rara de amor.
Quem
escuta oferece ao outro o bem mais precioso que possui: a própria presença.
No
fundo, todos desejamos encontrar alguém diante de quem possamos dizer, sem
vergonha, que o coração anda vazio.
Alguém
que não responda imediatamente.
Que
não dê conselhos apressados.
Que
não transforme nossa dor em estatística.
Apenas
permaneça.
Como
o sabiá permanece.
Existe
ainda um último mistério na canção.
O
pássaro nunca responde.
E,
paradoxalmente, isso não diminui a beleza do encontro.
Porque
algumas perguntas não existem para serem respondidas.
Existem
para manter vivo o amor.
Enquanto
perguntamos por aquilo que perdemos, confessamos que ainda somos capazes de
amar.
E
talvez seja essa a verdadeira função dos confidentes dos solitários.
Não
eliminar a saudade.
Mas
impedir que ela se transforme em desesperança.
No
fim das contas, todos precisamos de um sabiá.
Alguém
— ou alguma presença — diante de quem possamos depositar nossas perguntas mais
silenciosas.
Porque
há dores que procuram respostas.
Mas
existem outras, muito mais profundas, que procuram apenas um coração disposto a
escutá-las.
E,
quando isso acontece, a solidão deixa de ser abandono.
Transforma-se
em um lugar onde a esperança ainda canta.
ANEXO
Sabiá - Compositores: Jose de Souza Dantas
Filho (Ze Dantas) (UBC),
Luiz Gonzaga do Nascimento (Gonzagão)
https://www.instagram.com/reel/DYAFCnVxFGq/?igsh=OXpmcWZoZ2FoaDZ0
“A todo mundo eu dou psiu
Perguntando por meu bem
Tendo um coração vazio
Vivo assim a dar psiu
Sabiá vem cá também
Tu que andas pelo mundo (sabiá)
Tu que tanto já voou (sabiá)
Tu que cantas passarinho (sabiá)
Alivia minha dor
Tem pena d'eu (sabiá)
Diz por favor (sabiá)
Tu que tanto anda no mundo (sabiá)
Onde anda o meu amor
Sabiá”
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