O Julgamento e o Espelho

Quando o olhar do outro participa da construção de quem somos

Por Hiran de Melo

Existe uma frase muito repetida em nosso tempo: "A opinião dos outros não paga minhas contas." É verdade.

Outra diz: "Quem me julga não vive a minha vida." Também é verdade.

Mas há uma terceira verdade, menos confortável e, talvez por isso mesmo, mais transformadora: ninguém amadurece completamente sem passar pelo olhar do outro.

Vivemos numa época que confunde liberdade com impermeabilidade. Queremos ser tão autônomos que passamos a acreditar que não devemos nada ao julgamento alheio. Como se crescer significasse tornar-se imune às palavras que nos alcançam.

Entretanto, não é assim que a existência humana acontece.

O ser humano nasce no olhar de alguém.

Antes mesmo de saber pronunciar seu próprio nome, ele já é reconhecido por uma voz que o chama, por um rosto que o contempla, por um abraço que lhe diz silenciosamente: "Você existe."

Nossa identidade nunca foi construída em absoluto isolamento.

Ela nasce no encontro.

É justamente por isso que o julgamento possui uma ambiguidade extraordinária.

Ele pode ferir.

Pode aprisionar.

Pode humilhar.

Mas também pode despertar.

Nem toda crítica é violência.

Nem todo elogio é amor.

Há elogios que adormecem a consciência.

Há críticas que inauguram uma nova etapa da vida.

A maturidade talvez consista exatamente em aprender essa delicada arte do discernimento.

Não se trata de viver para agradar os outros.

Isso seria escravidão.

Também não se trata de viver ignorando completamente os outros.

Isso seria arrogância.

Entre a submissão e a indiferença existe um território raro chamado sabedoria.

Quem rejeita toda crítica fecha as portas da própria transformação.

Quem aceita todas perde a própria identidade.

O crescimento acontece quando somos capazes de perguntar, diante de cada julgamento:

"O que isso revela sobre quem falou?"

E, logo depois:

"O que isso revela sobre mim?"

A primeira pergunta protege nossa paz.

A segunda protege nossa evolução.

É verdade que quem fala do outro revela muito de si.

O invejoso denuncia sua carência.

O agressivo expõe suas feridas.

O ressentido distribui a dor que nunca conseguiu elaborar.

Mas seria um enorme desperdício concluir daí que toda crítica deve ser descartada.

Até uma boca amarga pode, por acidente, dizer uma verdade.

Até um inimigo pode apontar um ponto cego que nossos amigos nunca tiveram coragem de mostrar.

A sabedoria não consiste em escolher quem fala.

Consiste em discernir o que merece permanecer.

Existe um curioso paradoxo.

Quanto mais amadurecemos, menos necessidade sentimos de nos justificar.

Mas também maior se torna nossa capacidade de escutar.

Porque já não ouvimos para defender o ego.

Ouvimos para educar a alma.

É por isso que nem toda resposta precisa ser pronunciada.

O silêncio também argumenta.

Há pessoas que discutem porque desejam compreender.

Outras discutem apenas para vencer.

As primeiras merecem diálogo.

As segundas merecem serenidade.

Responder a tudo é entregar ao outro o governo da própria paz.

Mas ignorar tudo é impedir que a consciência continue aprendendo.

A vida exige outro caminho.

Ela pede escuta sem servidão.

Firmeza sem endurecimento.

Humildade sem submissão.

Quando alguém nos julga, duas possibilidades se apresentam.

A primeira é levantar muralhas.

A segunda é abrir janelas.

As muralhas protegem.

As janelas iluminam.

Quem vive atrás de muralhas dificilmente será ferido.

Mas também dificilmente crescerá.

Toda grande transformação humana começou quando alguém teve coragem de olhar para si mesmo sem o conforto das próprias justificativas.

Não somos apenas aquilo que pensamos ser.

Também somos aquilo que os nossos encontros revelam.

O outro é um espelho imperfeito.

Às vezes devolve uma imagem distorcida.

Às vezes revela uma verdade que jamais conseguiríamos enxergar sozinhos.

Por isso, não devemos entregar nossa identidade ao julgamento de ninguém.

Mas também não devemos desperdiçar aquilo que o julgamento pode nos ensinar.

A verdadeira liberdade não nasce quando deixamos de ouvir.

Nasce quando aprendemos a escutar sem perder a nós mesmos.

No fim, talvez seja esse o segredo da maturidade.

Seguir o próprio caminho com coragem suficiente para não depender dos aplausos.

E com humildade suficiente para não desprezar as lições que, inesperadamente, podem chegar até nós pela voz daqueles que nos observam.

Porque quem vive apenas para agradar aos outros nunca encontra a si mesmo.

Mas quem acredita não precisar de ninguém corre o risco de jamais descobrir quem ainda pode se tornar.

O outro não define quem somos.

Entretanto, muitas vezes é através dele que a vida nos oferece a oportunidade de continuar nos tornando.

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