O Jardim de Todos Nós
As Folhas em Branco e as Marcas do Tempo
Por Hiran de Melo
Duas
pessoas se encontram e, em algum momento, decidem viver uma história de amor.
No
começo, tudo parece possível.
Há
uma folha em branco diante de cada uma. O papel ainda não conhece as palavras
que serão escritas, nem as lágrimas que poderão cair sobre ele. Não existem
rasuras, manchas ou dobras. Há apenas o espaço aberto das possibilidades.
E
então começam a escrever.
Escrevem
com os encontros, com os abraços demorados, com as palavras ditas ao ouvido,
com os pequenos gestos que quase ninguém percebe, mas que o coração guarda.
Escrevem com os sonhos compartilhados e com a esperança de que duas histórias
possam, por algum tempo, transformar-se em uma só.
Mas
a vida não é feita apenas de encontros.
Também
existem os desencontros.
Há
palavras que ferem. Silêncios que castigam. Ausências que deixam marcas.
Expectativas que não são correspondidas. Promessas que não se cumprem. E,
algumas vezes, há agressões que ultrapassam o momento em que aconteceram e
continuam vivendo dentro de quem foi ferido.
É
nesse instante que a folha começa a mudar.
O
problema não está em haver marcas. Afinal, nenhuma história verdadeira
permanece completamente limpa. O problema começa quando escolhemos registrar
apenas aquilo que nos feriu e deixamos morrer, por negligência, aquilo que um
dia nos fez felizes.
A
memória possui essa estranha capacidade.
Ela
pode transformar uma pequena ferida em monumento e reduzir um grande amor a uma
lembrança quase apagada.
Quando
isso acontece, o ressentimento passa a escrever por nós.
E
o ressentimento é um péssimo escritor.
Ele
não conta a história inteira. Seleciona os episódios que justificam a dor,
amplia as faltas, repete as palavras que machucaram e silenciosamente apaga os
momentos em que fomos acolhidos, desejados e amados.
Assim,
cada tentativa de recomeço pode tornar-se apenas uma repetição.
Muda-se
a data, muda-se o cenário, muda-se até a promessa, mas permanece a mesma folha
amassada dentro de nós.
Porque
não basta começar de novo.
É
preciso aprender a terminar o que ainda nos prende ao passado.
Há
pessoas que se separam, mas continuam vivendo juntas dentro da memória. Trocam
de casa, de companhia, de rotina, mas levam consigo a antiga discussão, o
antigo abandono, a antiga humilhação. E, sem perceber, fazem o novo amor pagar
uma dívida que não contraiu.
É
assim que uma pessoa pode entrar em uma relação nova carregando um
relacionamento antigo.
A
folha pode ser nova.
Mas
a tinta continua sendo a mesma.
Por
isso, diante de uma história marcada pelo tempo, existem dois caminhos
possíveis.
O
primeiro é o perdão.
Perdoar
não significa declarar que aquilo que aconteceu foi correto. Não significa
apagar a responsabilidade de quem feriu, nem obrigar o coração a esquecer
aquilo que viveu.
Perdoar
é retirar do passado o direito de continuar governando o presente.
Às
vezes, precisamos perdoar o outro.
Outras
vezes, precisamos perdoar a nós mesmos.
Perdoar-nos
por termos permanecido onde não deveríamos. Por termos amado de uma maneira que
nos feriu. Por termos deixado acontecer determinadas dores. Por não termos
sabido dizer não. Por termos confundido amor com dependência, cuidado com
posse, presença com obrigação.
Há
culpas que não precisam permanecer eternamente conosco.
Quando
o perdão acontece, alguma coisa se modifica.
A
folha não volta a ser exatamente aquela primeira folha em branco. Afinal, o
tempo não pode ser devolvido. A experiência permanece. As marcas nos
transformaram.
Mas
uma folha marcada pode receber uma nova escrita.
Talvez
essa seja uma das maiores lições do amor: recomeçar não significa voltar ao
ponto de partida; significa escrever a partir do lugar onde chegamos.
O
segundo caminho é a despedida.
Há
histórias que precisam terminar.
Não
porque tenham sido falsas, mas porque chegaram ao limite do que podiam
oferecer. Nem todo amor precisa durar para ser verdadeiro. Alguns amores
cumprem sua função, ensinam, transformam e, depois, precisam partir.
Nesse
caso, é preciso coragem para colocar a folha sobre a mesa e dizer:
“Esta
história terminou.”
E
talvez seja necessário amassá-la.
Não
para negar o que foi vivido, mas para reconhecer que aquela página já não pode
receber a mesma narrativa.
Entretanto,
existe uma condição para que a despedida seja realmente uma despedida:
não
levar a folha amassada para o próximo relacionamento.
Porque
podemos abandonar uma pessoa sem abandonar a mágoa.
Podemos
deixar uma casa sem deixar a história.
Podemos
terminar um relacionamento sem terminar a guerra que continuamos travando
dentro de nós.
E
então o novo amor chega, encontra uma pessoa aparentemente disponível, mas
descobre, pouco a pouco, que existe alguém do passado sentado à mesa.
É
o fantasma da comparação.
É
a desconfiança construída pela antiga decepção.
É
o medo de ser abandonado novamente.
É
a necessidade de controlar porque um dia fomos enganados.
É
a incapacidade de receber carinho porque aprendemos a esperar a dor depois
dele.
A
nova pessoa não fez nada.
Mas
recebe a conta.
Por
isso, talvez o verdadeiro recomeço não esteja simplesmente em encontrar alguém
novo.
Está
em tornar-se alguém novo diante da própria história.
Todos
nós carregamos marcas do tempo.
Algumas
são cicatrizes. Outras são lembranças bonitas. Algumas doem quando tocadas.
Outras nos fazem sorrir.
Não
precisamos arrancar todas as páginas da nossa vida para continuar escrevendo.
Precisamos
apenas aprender quais páginas merecem ser relidas e quais precisam ser
encerradas.
A
maturidade talvez seja isso: compreender que o passado não precisa ser apagado
para deixar de ser uma prisão.
Uma
folha pode estar marcada e, ainda assim, continuar sendo escrita.
Um
coração pode ter sofrido e, ainda assim, continuar amando.
Uma
pessoa pode ter sido ferida e, ainda assim, escolher não transformar sua ferida
em instrumento para ferir o próximo.
Porque
o amor verdadeiro não exige uma folha absolutamente branca.
Exige
mãos dispostas a escrever com cuidado.
E,
quando duas pessoas decidem permanecer, talvez o gesto mais bonito não seja
procurar uma folha perfeita, mas sentar-se diante daquela que o tempo marcou e
perguntar:
“O
que ainda podemos escrever aqui?”
Talvez
o amor maduro não seja aquele que nunca conheceu as rasuras.
Talvez
seja aquele que, depois de tantas marcas, ainda encontra coragem para escrever
uma nova frase.
A
quatro mãos.
Sem
apagar completamente o passado.
Sem
permitir que ele determine o futuro.
Porque
o tempo deixa marcas.
Mas
não precisa escrever o nosso destino.
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