O Jardim de todos nós


A Palavra encontrada

Por Hiran de Melo

Existe uma palavra que eu não aprendi na infância, nem quando era menino, nem na adolescência. Na juventude, tampouco. Atravessei a vida inteira sem conhecê-la em sua plenitude.

O que me acompanhou em todas as jornadas, lutas e batalhas tinha um nome só: medo. Medo de sofrer, medo de ser atropelado, medo de ser traído — medo de quase tudo.

E quando o medo se afastava, vinha a coragem. Aquela coragem de quem mergulha ignorando o perigo, ou de quem mergulha porque não há outra escolha senão seguir. Diante do abismo, faltava-me medo — e eu me jogava. Não por bravura, talvez por atração. E assim foi: o abismo da escola, da universidade, do ensinar o que não se sabe, do tentar responder à vida da melhor forma possível — não para todos, mas para mim, com o que eu tinha.

Até que, recentemente, descobri a palavra que nunca me foi dita. Antes dela, havia algo parecido: paixão. A paixão me empurrava para o abismo — pelo ciclismo, pelo futebol, pela torcida enlouquecida do Campinense Clube, a Raposa Feroz da minha terra. Quando não havia dinheiro para o ingresso, esperava a “hora dos miseráveis”, aquele instante em que os portões se abriam e a meninada entrava correndo para ver os últimos minutos do jogo. Ah, como era bom! A paixão me embalava, mesmo sem saber o placar.

Com o tempo, a paixão se transformou. Vieram outros times, outras telas, outras cores rubro-negras. Mas o que ficou foi o calor de pertencer, de vibrar, de sentir-se parte de algo maior.

E então, na maturidade, quando o medo se afastou — não por coragem, nem por paixão, mas por serenidade — apareceu a palavra esquecida: amor.

Descobri que amar a Deus não era o mesmo que temê-Lo. Quando criança, eu amava por medo — medo do inferno, medo da punição. Só depois entendi que o amor verdadeiro não nasce do temor, mas da gratidão. “Amar ao próximo como a ti mesmo” — que desafio imenso! Só agora compreendo o que é amar: quando o medo da morte se dissolve, quando o inferno deixa de existir, e a vida se revela como dádiva.

Hoje, vejo a existência como um presente. Ah, como é bom estar vivo! Ah, como é bom ter o amor dentro de si! O amor é a própria vida — uma vida sem medo.

 


Medo, paixão, amor e a travessia do ser

Por Hiran de Melo

Há palavras que encontramos cedo demais.

Outras chegam quando já pensamos ter compreendido a vida.

E existem aquelas que permanecem escondidas durante quase toda a nossa existência, esperando que alguma coisa dentro de nós amadureça para que possam finalmente ser pronunciadas.

Talvez o amor seja uma dessas palavras.

Não porque seja desconhecido. Ao contrário: falamos dele desde sempre. Cantamos o amor, escrevemos sobre ele, prometemos amor, exigimos amor. Dizemos amar a Deus, os filhos, os amigos, a pátria, os animais, nossas paixões e até nossas próprias convicções.

Mas uma coisa é pronunciar a palavra.

Outra, muito diferente, é encontrá-la.

Em “A Palavra encontrada”, narro precisamente essa descoberta. O percurso começa no medo, atravessa a paixão e chega ao amor. Não se trata apenas de uma mudança emocional. É uma transformação na maneira de habitar a própria existência.

E talvez seja justamente aí que o texto encontre Jacques Lacan e Martin Heidegger.

Não para transformar a literatura em tratado filosófico ou psicanalítico, mas para permitir que duas grandes perspectivas ajudem a iluminar aquilo que a experiência, muitas vezes, apenas pressente.

O medo, a paixão e o amor podem ser compreendidos como três momentos de uma mesma travessia: o homem diante de si mesmo, diante do outro e, finalmente, diante da própria existência.

1. Quando o medo aprende a falar

O que me acompanhou em todas as jornadas, lutas e batalhas tinha um nome só: medo.

Talvez nenhuma frase revele tanto do texto quanto essa.

O medo não aparece como episódio. Ele aparece como companheiro.

Não é algo que simplesmente me aconteceu. É algo que esteve presente em minha maneira de caminhar pelo mundo.

À luz de Heidegger, essa experiência pode ser compreendida como uma disposição que revela o ser-no-mundo. O medo nos mostra que não somos invulneráveis. Há algo diante de nós que pode nos ameaçar, ferir, abandonar ou destruir.

O medo revela nossa condição de seres finitos.

Mas há uma diferença importante entre medo e angústia no pensamento heideggeriano. O medo possui, em geral, um objeto: temos medo de alguma coisa. A angústia, por sua vez, pode retirar do mundo suas referências habituais e colocar o próprio ser diante do nada e de sua possibilidade de existir.

O texto A Palavra encontrada percorre justamente essa fronteira.

Há medo de sofrer. Medo de ser traído. Medo de ser atropelado. Medo de quase tudo.

Mas, por trás desses medos particulares, existe algo maior: o medo daquilo que não podemos controlar.

A vida. A perda. A morte. O abandono. O desconhecido.

Em Lacan, podemos compreender esse medo como algo que toca o ponto em que a linguagem não consegue oferecer respostas suficientes. O sujeito procura palavras para aquilo que sente, mas descobre que há experiências que escapam à nomeação.

É aí que aparece o Real lacaniano: aquilo que não se deixa domesticar completamente pelo discurso.

O abismo é uma bela imagem para esse lugar.

O narrador não apenas olha para o abismo.

Às vezes, ele mergulha.

E talvez seja porque, diante do abismo, permanecer parado também seja uma forma de morrer.

2. A coragem nem sempre é ausência de medo

Existe uma passagem particularmente humana no texto:

Diante do abismo, faltava-me medo — e eu me jogava. Não por bravura, talvez por atração.

Aqui a narrativa se afasta da ideia convencional de coragem.

Coragem não é necessariamente ausência de medo.

Às vezes, é apenas a impossibilidade de permanecer onde estamos.

A vida nos empurra. A curiosidade nos empurra. O desejo nos empurra. A necessidade de descobrir quem somos nos empurra.

Foi assim na escola, na universidade, no ensino, no trabalho, nas relações, nas escolhas. O sujeito se lança antes de possuir todas as respostas.

Talvez porque ninguém receba da vida o manual de instruções para viver.

Heidegger chama atenção para essa condição de ser-lançado no mundo. Não escolhemos nascer, não escolhemos inicialmente as circunstâncias em que chegamos, nem recebemos previamente o conhecimento necessário para enfrentar aquilo que encontraremos.

Chegamos.

E depois precisamos aprender a existir.

Por isso, viver é sempre uma espécie de aprendizagem tardia.

Primeiro vivemos. Depois compreendemos.

E, às vezes, compreendemos apenas quando já vivemos quase tudo.

3. A paixão: quando precisamos pertencer

Antes do amor, o texto encontra outra palavra: paixão.

E a paixão ocupa um lugar importante porque ela não é simplesmente um estágio inferior do amor. Ela é uma maneira de pertencer.

O futebol, o ciclismo, a torcida, o Campinense Clube, as cores rubro-negras, a “hora dos miseráveis”, os portões que se abriam e permitiam que a meninada entrasse para assistir aos minutos finais do jogo.

Tudo isso é muito mais do que futebol.

É memória. É identidade. É comunidade. É pertencimento.

Quando o narrador lembra aquela corrida para dentro do estádio, talvez esteja lembrando também uma das primeiras experiências de fazer parte de alguma coisa maior do que ele mesmo.

Lacan ajuda-nos a compreender esse movimento.

O sujeito não se constitui sozinho. Ele se constitui no campo do Outro, através da linguagem, das identificações, dos símbolos e dos vínculos que lhe dizem, de alguma maneira, quem ele é.

“Sou daqui.”

“Sou desse time.”

“Sou dessa torcida.”

“Essas são minhas cores.”

O indivíduo procura uma imagem na qual possa se reconhecer.

A paixão oferece essa imagem.

Ela diz: você pertence.

E isso é poderoso.

Porque uma das maiores dores humanas é a sensação de não pertencer a lugar algum.

Mas a paixão também possui um limite.

Ela é intensa.

É capaz de nos fazer gritar, correr, chorar, abraçar desconhecidos e acreditar que, naquele instante, todos somos um.

Mas ela passa.

O jogo termina. A torcida se dispersa. As luzes do estádio se apagam. O placar permanece. E nós voltamos para casa.

Talvez seja essa a razão pela qual Lacan associa o desejo a uma falta que jamais encontra satisfação definitiva. Procuramos objetos, pessoas, grupos e experiências que prometem preencher alguma coisa em nós.

Encontramos. Vivemos. Perdemos. E continuamos procurando.

A paixão não é inútil.

Ela nos ensina que precisamos do outro.

Mas ainda não nos ensina completamente como amar o outro.

4. Quando o medo de Deus impede o amor a Deus

É nesse ponto que o texto ganha uma dimensão particularmente profunda:

Descobri que amar a Deus não era o mesmo que temê-Lo.

Talvez essa seja a verdadeira palavra encontrada.

Porque existe uma diferença enorme entre viver diante de Deus por medo e viver diante de Deus por amor.

Na infância, muitas vezes, Deus é apresentado como aquele que observa, julga e pune.

O céu é recompensa. O inferno é ameaça.

A obediência nasce do medo.

Nesse estágio, amar pode significar simplesmente não querer ser castigado.

Mas isso ainda não é liberdade. É submissão.

A maturidade espiritual começa quando o sujeito deixa de perguntar:

“O que acontecerá comigo se eu fizer isso?”

e começa a perguntar:

“Que ser humano estou me tornando ao fazer isso?”

Essa mudança é profunda.

O medo pergunta pela punição. O amor pergunta pelo sentido.

O medo quer escapar do inferno. O amor deseja participar da construção de um mundo menos infernal.

E talvez seja aí que a antiga sentença “amar ao próximo como a ti mesmo” adquira outra dimensão.

Não se trata de gostar de todo mundo. Não se trata de concordar com todo mundo. Não se trata sequer de evitar conflitos.

Trata-se de reconhecer no outro uma existência tão vulnerável quanto a nossa.

O outro também teme. O outro também perde. O outro também envelhece. O outro também morrerá.

E talvez o amor comece justamente quando percebemos que não somos tão diferentes quanto imaginávamos.

5. A morte muda de lugar

No texto afirmo:

Só agora compreendo o que é amar: quando o medo da morte se dissolve, quando o inferno deixa de existir, e a vida se revela como dádiva.

Aqui encontramos talvez o ponto de maior aproximação com Heidegger.

O ser humano é um ser voltado para a própria finitude. Sabemos que vamos morrer.

E essa certeza acompanha silenciosamente todas as nossas escolhas.

Para Heidegger, a relação autêntica com a morte não significa viver obcecado por ela, mas reconhecer a finitude como constitutiva da existência.

A morte não é simplesmente aquilo que acontecerá no final.

Ela acompanha a vida inteira como possibilidade.

E, justamente por isso, pode transformar a maneira como vivemos.

Quando o medo da morte diminui, algo extraordinário pode acontecer:

a vida deixa de ser preparação para outra coisa e passa a ser percebida como acontecimento.

O presente ganha espessura. Um abraço deixa de ser apenas um abraço. Uma conversa passa a ser oportunidade. Uma amizade torna-se patrimônio. Um amanhecer deixa de ser rotina.

Estar vivo torna-se suficiente para agradecer.

Ah, como é bom estar vivo!”

Talvez essa frase pareça simples.

Mas ela contém uma revolução.

Porque quem realmente compreende a finitude pode finalmente descobrir a preciosidade do instante.

6. A palavra encontrada

É aqui que Lacan e Heidegger se encontram de maneira especialmente fecunda.

Para Lacan, o sujeito é constituído na linguagem.

Para Heidegger, a linguagem é o lugar privilegiado em que o ser se desvela.

Por isso, encontrar uma palavra não significa simplesmente descobrir um termo para alguma coisa que já conhecíamos.

Às vezes, encontrar a palavra significa descobrir uma nova maneira de existir.

O narrador passou grande parte da vida conhecendo o medo.

Depois conheceu a paixão.

Somente mais tarde encontrou o amor.

Não é apenas uma sequência de palavras.

É uma sequência de modos de ser.

O medo dizia:

proteja-se.

A paixão dizia:

entregue-se.

O amor finalmente diz:

permaneça.

Permaneça diante do outro. Permaneça diante da vida. Permaneça diante da finitude. Permaneça mesmo sabendo que nada é permanente.

É uma espécie de serenidade.

Heidegger, especialmente em sua reflexão posterior, aproximará a serenidade da capacidade de deixar que as coisas sejam, sem a necessidade permanente de dominá-las.

E talvez amar seja exatamente isso.

Não possuir. Não controlar. Não garantir. Não aprisionar. Deixar existir.

7. O jardim de todos nós

O título do capítulo “O Jardim de Todos Nós” pode ser compreendido como uma metáfora para a própria existência.

Um jardim não é feito apenas de flores.

Há folhas secas. Há espinhos. Há terra. Há raízes escondidas. Há sementes que não brotam. Há flores que duram pouco. Há outras que retornam depois do inverno.

A vida também é assim.

Durante muito tempo, talvez tenhamos querido construir jardins sem espinhos.

Queríamos relações sem perdas, amizades sem decepções, filhos sem sofrimento, envelhecimento sem limitações, fé sem dúvidas, amor sem abandono.

Mas isso não é um jardim. É uma fantasia.

O verdadeiro jardim é aquele que inclui tudo aquilo que gostaríamos de excluir.

O medo está no jardim. A paixão está no jardim. A perda está no jardim. A morte está no jardim. E o amor também.

Talvez amadurecer seja deixar de arrancar do jardim tudo aquilo que nos incomoda.

É compreender que até a sombra possui uma função.

Que a árvore precisa de raízes ocultas.

Que algumas flores só aparecem depois de atravessarmos o inverno.

E que nós também somos assim.

8. O amor não elimina o medo; muda nossa relação com ele

Talvez seja necessário fazer uma pequena correção à ideia de que o amor surge quando o medo desaparece.

O amor não precisa eliminar o medo.

Isso seria outra forma de ilusão.

Quem ama tem medo. Tem medo de perder. Tem medo de ferir. Tem medo de não ser suficiente. Tem medo de que aquilo que ama termine.

A diferença é que o medo já não governa.

Ele deixa de ser senhor e passa a ser companheiro.

É aqui que a travessia se completa.

Em Lacan, o sujeito não elimina a falta. Aprende a se relacionar com ela.

Em Heidegger, o homem não elimina a finitude. Aprende a existir a partir dela.

E no texto A Palavra encontrada, o medo não precisa desaparecer completamente para que o amor exista.

Basta que ele deixe de determinar o sentido da vida.

O medo dizia:

não se entregue porque você pode sofrer.

O amor responde:

entregue-se, mesmo sabendo que pode sofrer.

O medo dizia:

não ame porque um dia você perderá.

O amor responde:

ame porque justamente por isso o encontro é precioso.

9. A maturidade como descoberta tardia

Há uma beleza particular na ideia de descobrir o amor tarde.

Porque a maturidade nos rouba algumas ilusões, mas pode nos devolver aquilo que realmente importa.

Na juventude, queremos conquistar o mundo.

Na maturidade, começamos a perceber que talvez seja mais importante habitá-lo.

Na juventude, queremos ser reconhecidos.

Depois, talvez desejemos simplesmente reconhecer.

Reconhecer o outro. Reconhecer a vida. Reconhecer nossos próprios erros.

Reconhecer que não somos tão importantes quanto imaginávamos — e que, apesar disso, nossa existência possui um valor imenso.

A serenidade não é desistência.

É uma forma mais profunda de presença.

É quando deixamos de perguntar à vida quanto ela ainda nos dará e começamos a agradecer pelo que ela já nos ofereceu.

10. A última descoberta

Talvez a grande descoberta de “A palavra encontrada” não seja simplesmente a palavra amor.

Talvez seja a descoberta de que sempre estivemos procurando essa palavra.

O medo procurava proteção. A paixão procurava pertencimento.

A coragem procurava passagem. A fé procurava sentido.

A linguagem procurava nomear. E, no fim, tudo parecia conduzir para o mesmo lugar.

O amor.

Não o amor romântico apenas. Não o amor idealizado. Não o amor que exige reciprocidade perfeita.

Mas o amor como modo de habitar a existência.

Amar a Deus sem medo. Amar o próximo sem pretender possuí-lo. Amar a vida sem exigir que ela seja perfeita. Amar a si mesmo sem transformar isso em egoísmo. Amar o tempo sabendo que ele passa. Amar a memória sabendo que ela também se transforma. Amar até mesmo aquilo que não compreendemos inteiramente.

Talvez seja isso que significa encontrar uma palavra.

Não é descobri-la no dicionário. É reconhecê-la dentro de nós.

Conclusão — O jardim permanece

Hoje, olhando para trás, percebo que o caminho nunca foi uma linha reta.

Houve medo. Houve coragem. Houve paixão. Houve perdas. Houve abismos. Houve estádios. Houve portas que se abriram tarde. Houve outras que permaneceram fechadas. E houve uma palavra esperando.

Amor.

Lacan nos ajuda a perceber que essa palavra reorganiza o sujeito porque modifica sua relação com o desejo, com a falta e com o Outro.

Heidegger nos ajuda a compreender que essa mesma palavra pode representar uma nova abertura para o ser, uma maneira mais serena de habitar a finitude e deixar que a existência se revele.

Entre os dois, o texto encontra uma possibilidade profundamente humana:

não precisamos vencer a vida para compreendê-la.

Precisamos habitá-la.

Talvez o jardim de todos nós seja exatamente esse lugar.

Um jardim onde o medo ainda existe, mas já não reina.

Onde a paixão ainda floresce, mas já não exige eternidade.

Onde a morte permanece como horizonte, mas já não impede o amanhecer.

E onde o amor, finalmente encontrado, não aparece como resposta para todas as perguntas.

Ele aparece como uma nova maneira de fazer as perguntas.

Porque talvez a maturidade não seja descobrir que sabemos o que é a vida.

Talvez seja descobrir que, depois de tantos anos, finalmente aprendemos a dizer: eu não preciso mais ter medo de estar vivo.

E então compreendemos.

A vida não era o intervalo entre dois abismos.

A vida era o jardim.

E nós sempre estivemos dentro dele.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog