O Jardim de Todos Nós
Ser Ponte ou Ser Escada
Divagações de uma alma com a memória
fragmentada (e as pernas bambas)
Por Hiran de Melo
Existe
uma pergunta que raramente fazemos a nós mesmos: fomos feitos para chegar, ou
fomos feitos para conduzir?
Carrego
em mim a estranha e inescapável natureza de ser ponte. Nunca fui destino. Uma
ponte não guarda quem passa por ela — apenas sustenta o peso do outro até que
ele encontre a própria margem. E talvez seja essa, afinal, a vocação mais
silenciosa e menos celebrada entre as vocações humanas: a de servir de passagem
para o lugar onde o outro quer chegar, sem nunca ali colocar os próprios pés.
Foi
assim desde os quinze anos. A facilidade quase natural com os números me adotou
antes que eu a escolhesse, e me tornou professor de reforço muito antes de eu
saber o que queria ser. O que parecia trabalho passageiro tornou-se destino —
ou melhor: tornou-se a negação de todo destino próprio, porque me fixou como
caminho para o destino alheio. Ensinei matemática a quem precisava vencer o ano
letivo. Não me cabia perguntar para onde levavam depois.
Uma
ponte não pergunta. Apenas sustenta.
O que se queria e o que se teve
No
fundo, havia o desejo de ser algo a mais. Ou talvez inteiramente diferente.
Queria
ter sido poeta. Queria ter amado uma única mulher. Queria uma rotina bem
definida, com começo, meio e repouso. Queria até a fé pronta — aquela em que
fui batizado sem consultarem-me, e que sonhei um dia fazer minha por escolha, e
não apenas por herança.
Nenhum
desses desejos chegou a se cumprir como sonhado. E há uma dor específica nisso
— não a dor de ter fracassado, mas a de ter sido, o tempo inteiro, fiel a uma
vocação que não se escolheu. Restou seguir a natureza da própria estrutura e me
entregar; deixar de lutar contra o que já se era. Contentar-me em adquirir
conhecimento apenas para repassá-lo, como quem recebe água de um lado do rio só
para entregá-la do outro, sem nunca beber dela. Não me cabia empregar o que
sabia. Cabia-me transmitir. A instituição escolar cuidaria do valor daquilo que
eu apenas fazia atravessar. Minha missão era a eficiência do fluxo — nunca a
substância do que fluía.
Uma
ponte é julgada pela solidez, não pelo destino de quem a atravessa. Ninguém
pergunta se ela própria queria ficar plantada ali.
Da ponte para a escada
Foi
somente depois da aposentadoria — quando o fluxo finalmente parou de exigir de
mim a função — que me dei ao luxo de investigar o valor real do conhecimento.
Sua capacidade de transformar. Suas razões. Seus fins.
Essa
investigação, porém, já não pertence à estrutura plana da ponte.
A
ponte liga uma margem à outra, sempre na mesma altura, sempre horizontal,
sempre a serviço de quem passa. Mas existe uma outra estrutura, mais rara, que
não liga margem a margem — liga profundidade a altura. Talvez seja da natureza
da escada: aquela que permite tanto o aprofundamento quanto a elevação. A ponte
atravessa. A escada transforma quem sobe.
E
se a vida inteira foi gasta sendo travessia para os outros, talvez a última
tarefa — a mais tardia e a mais difícil — seja aprender, enfim, a subir para si
mesmo.
Com
pernas que já não são as de quem atravessa correndo. Com pernas bambas, mas
ainda dispostas ao degrau.
A
antiga natureza que insiste em sussurrar
Hoje,
quero ser escada para mim mesmo.
Mas
a antiga natureza — aquela que passou décadas se contentando em servir de
passagem — não se desfaz com um decreto da vontade. Ela insiste em sussurrar
que esse aprofundamento talvez sirva a mais alguém além de mim. Que degrau
subido em silêncio nunca fica de todo guardado para quem sobe. Que talvez a
solidão da busca própria continue, sem que se perceba, servindo de sustento
para outros pés.
Não
se trata de buscar diplomas ou títulos acadêmicos — essas são as credenciais da
ponte, não da escada. Trata-se de erguer pequenos faróis para quem, no meio da
névoa, busca viver plenamente o dom de existir.
Um
farol não atravessa ninguém. Não sustenta peso alheio sobre si. Apenas indica,
à distância, que há terra em algum lugar — e deixa que cada um encontre, com as
próprias pernas bambas, o seu caminho até lá.
O que a ponte e a escada têm em comum
Talvez
a diferença entre ponte e escada não esteja na estrutura, mas na direção do
olhar de quem constrói.
A
ponte que só serve ao outro esquece que também precisa de fundação. A escada
que só serve a si mesma esquece que foi erguida sobre o mesmo chão comum a
todos.
Ser
ponte a vida inteira e não perceber que também se poderia subir — essa é a
névoa de quem confunde vocação com destino final. Mas descobrir a escada tarde
e recusar-se a ainda ser, de vez em quando, passagem para alguém — essa seria
outra forma da mesma cegueira, apenas invertida.
Talvez
a alma madura não escolha entre ser ponte ou ser escada. Talvez aprenda,
finalmente, que toda escada bem construída também é ponte — entre quem se foi e
quem ainda se pode ser. E que toda ponte, olhada de perto, sempre teve um leve
declive ascendente, que ninguém, com pressa de atravessar, jamais parou para
notar.
Não
fui destino. Mas talvez, no fim, ninguém precise ser. Basta ter sido, para
alguém, o degrau que faltava — e, para si mesmo, ainda que tarde, com as pernas
bambas e a memória fragmentada, o primeiro.
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